Brasil: Novo ataque a Vera Magalhães é resultado da onda bolsonarista de intimidação ao jornalismo

Organizações que atuam na defesa da liberdade de imprensa divulgam nota em solidariedade a jornalista agredida pelo deputado estadual Douglas Garcia, aliado de Jair Bolsonaro. A profissional foi hostilizada e agredida verbalmente na noite de 13 de setembro, após debate promovido por UOL, TV Cultura e Folha de S.Paulo com candidatos ao governo do estado de São Paulo.

 

As organizações signatárias se dirigem à sociedade brasileira para expressar indignação e revolta por mais um ataque contra Vera Magalhães, apresentadora do programa Roda Viva, da TV Cultura, e colunista do jornal O Globo e da rádio CBN. A profissional foi hostilizada e agredida verbalmente na noite desta terça-feira (13/09), pelo deputado estadual paulista Douglas Garcia (Republicanos).

No fim do debate promovido por UOL, TV Cultura e Folha de S.Paulo com candidatos ao governo de São Paulo, Garcia se aproximou da jornalista para afrontá-la. O deputado afirmou que Vera Magalhães “é uma vergonha para o jornalismo”, reproduzindo as palavras do presidente Jair Bolsonaro (PL) no debate entre presidenciáveis de 28 de agosto de 2022.

O parlamentar era convidado do candidato Tarcísio de Freitas (Republicanos). Entre as agressões, Garcia questionou o contrato de trabalho da jornalista. Todos os ataques foram registrados em vídeo pelo próprio parlamentar, o que demonstra a clara finalidade de intimidar e constranger Vera Magalhães. O apresentador Leão Serva, que mediou o debate entre os candidatos, retirou o celular da mão do parlamentar e o arremessou longe, numa tentativa de cessar os ataques.

As organizações signatárias prestam solidariedade com a jornalista, que já tinha sido vítima de desinformação produzida pelo mesmo deputado: em 20 de março de 2020, Garcia divulgara informações enganosas sobre o salário recebido por Vera Magalhães na TV Cultura.

A virulência desses ataques não pode ser normalizada. Durante os últimos quatro anos, jornalistas, especialmente mulheres, foram alvo do presidente e de seus aliados. Ataques misóginos e sexistas, reproduzidos em larga escala, e campanhas de desinformação orquestradas por agentes públicos minaram o debate público. Em recente levantamento lançado em 6 de setembro pela rede Voces del Sur, o Brasil é campeão de ataques com viés de gênero nos 14 países que integram a rede e que monitoram esse tipo de violência. Há dezenas de relatos de equipes jornalísticas trabalhando sem identificação em grandes atos de campanha por temer por sua integridade física.

As organizações signatárias lembram que se dirigiram diretamente aos partidos políticos e candidatos(as) nesta semana pedindo o fim das hostilidades e o respeito ao trabalho da imprensa nas sabatinas e nos debates entre os postulantes a cargos majoritários. Além disso, por meio da Carta Compromisso com a Liberdade de Imprensa e a Segurança de Jornalistas nas Eleições 2022, foi solicitado aos presidenciáveis que respeitassem a liberdade de imprensa e garantissem condições seguras para a cobertura eleitoral. Os candidatos Lula (PT), Ciro Gomes (PDF), Simone Tebet (MDB), Léo Péricles (UP), Sofia Manzano (PCB) e Vera Lucia (PSTU) já firmaram o compromisso. Jair Bolsonaro (PL) ainda não se manifestou oficialmente sobre a adesão ao documento.

As organizações exigem que a Assembleia Legislativa de São Paulo apure a conduta de Douglas Garcia (Republicanos), que violou a Constituição Federal ao atacar o exercício do jornalismo; e que as autoridades policiais conduzam investigação célere e independente sobre o caso.

São Paulo, 14 de setembro de 2022.

ARTIGO 19
Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji)
Associação de Jornalismo Digital (Ajor)
Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj)
Intervozes
Instituto Palavra Aberta
Instituto Vladimir Herzog
Repórteres sem Fronteiras (RSF)
Tornavoz

 

Publié le 14.09.2022