Análise

Ranking RSF 2021: um prognóstico dúbio para a liberdade de imprensa na América do Norte

Apesar dos avanços em termos de liberdade de imprensa na América do Norte - sobretudo no Canadá, que subiu duas posições, ocupando o 14o lugar, e nos Estados Unidos, que subiram uma e agora estão em 44o, a edição 2021 do Ranking envia sinais preocupantes.

Embora todos os países da região tenham superado desafios, a crise da Covid-19 revelou que nenhum deles está vacinado contra o vírus da desinformação. Mas é certamente nos Estados Unidos, onde alguns meios de comunicação divulgaram notícias falsas sobre o vírus enquanto outros os denunciavam, onde dezenas de milhões de pessoas foram infectadas e o coronavírus deixou mais de 350 mil mortos em 2020, que a situação foi mais flagrante, a tal ponto que o país pode se orgulhar de estar no topo da triste lista mundial de vidas perdidas na pandemia.


Sem imunidade contra a desinformação


Conforme relatado pelo #Observatório_19, ferramenta online desenvolvida pela RSF para acompanhar a crise sanitária, as coletivas de imprensa diárias televisionadas da Casa Branca - supostamente para manter os jornalistas e o público informados sobre a situação, o número de testes e internações - se transformaram muitas vezes em um circo midiático, tendo no centro o então presidente Donald Trump, proferindo insultos aos jornalistas e contradizendo as recomendações de médicos especialistas de seu próprio governo.


Mesmo no Canadá, que merece elogios por ter sido pró-ativo em termos de liberdade de imprensa dentro e fora do país, alguns meios de comunicação foram apontados por terem disseminado estereótipos e comentários depreciativos sobre grupos indígenas que relutavam em se vacinar. Esse tipo de jornalismo clichê e sensacionalista só alimenta visões historicamente falsas e negativas dos povos originários - no Canadá, mas também nos Estados Unidos. O coronavírus, portanto, ressaltou um problema recorrente na América do Norte, onde os meios de comunicação influenciam as percepções e criam preconceitos sobre povos indígenas.


Em outro país da região, a Jamaica (7º, -1), as autoridades foram acusadas de usar restrições ligadas ao confinamento para impedir o trabalho dos jornalistas. Comentários feitos pelo primeiro-ministro da Jamaica, Andrew Holness, no final de 2019, dizendo que jornalistas não tinham a obrigação de se ater aos fatos, também geraram desconforto. Nos países membros da Organização dos Estados do Caribe Oriental (OECO, 45o, -1) e na Guiana (51o, -2), a influência que políticos podem exercer sobre os veículos foi considerada uma ameaça à integridade editorial da imprensa. Quanto ao país que mais avançou nessa região, Trinidad e Tobago (31o, +5), a melhora deve-se principalmente a uma importante decisão da Suprema Corte em favor da proteção das fontes jornalísticas, que pode vir a ter um impacto significativo no Caribe.


Um ano violento para os jornalistas nos Estados Unidos


O indicador mais alarmante em termos de liberdade de imprensa na América do Norte é, sem dúvida, o número sem precedentes de prisões, agressões e violências contra profissionais da mídia durante os protestos anti-racismo que se seguiram à morte de George Floyd sob custódia de policiais, em meados de 2020. O nível de violência atingiu tal ponto que a US Press Freedom Tracker, organização parceira da RSF, considerou que a liberdade de imprensa nos Estados Unidos estava "em crise". As agressões foram cometidas por policiais, membros autodeclarados de milícias e de grupos anti-protestos, e envolveram uma ampla gama de meios: tiros com balas de borracha, spray de pimenta, ameaças verbais, assédio, destruição e confisco de materiais.


A violência que caracterizou os Estados Unidos durante grande parte de 2020 atingiu seu auge durante a invasão do Capitólio, em Washington, no dia 6 de janeiro de 2021. A invasão, que pretendia impedir a confirmação da vitória eleitoral de Joe Biden, levou à remoção imediata de Donald Trump de plataformas digitais como o Twitter. O acontecimento, ocorrido após quatro anos de crescentes distorções de fatos pelo ex-presidente nas redes sociais, gerou sérias preocupações entre os defensores da liberdade de imprensa quanto ao papel desproporcional de árbitros privados da verdade exercido pelas grandes empresas de tecnologia. A RSF pediu, então, que os principais players digitais devessem passar a responder por obrigações democráticas na moderação de conteúdo, sobretudo por meio de um processo de controle e equilíbrio baseado na transparência e na possibilidade de se recorrer de decisões - como a suspensão do perfil de determinadas figuras públicas.


Tratar os sintomas não significa curar


A chegada do governo Biden trouxe mudanças positivas na maneira como os jornalistas são tratados nos Estados Unidos: eles deixaram de ser difamados publicamente pela Casa Branca ou constantemente acusados de disseminar "fake news". No entanto, como acontece com qualquer paciente, embora os sintomas mais gritantes de uma democracia em dificuldade tenham sido debelados, muitas doenças crônicas subjacentes permanecem. Por exemplo, a maioria dos Republicanos continua a acreditar que a eleição presidencial de 2020 foi roubada e que, portanto, não é válida.


Na verdade, após o ataque ao Capitólio e pela primeira vez na história, menos da metade dos americanos entrevistados pelo Edelman Trust Barometer 2021 afirmou que confiava na chamada grande mídia. E 56% deles concordaram com a afirmação de que "jornalistas e repórteres tentam deliberadamente enganar o público, afirmando fatos que sabem ser falsos ou exagerando de forma grosseira".


A politização percebida - e por vezes muito real - e a polarização ideológica da informação são razões para essa desconfiança crescente. Embora um eleitorado informado seja pré-requisito para o bom funcionamento das democracias, tais tendências não são um bom presságio para a saúde e a longevidade de um jornalismo digno de confiança nos Estados Unidos.




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