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4 Julho 2021 - Atualizado a 7 Julho 2021

Velhos tiranos, duas mulheres e um europeu: a RSF revela sua edição 2021 dos “predadores da liberdade de imprensa”

A Repórteres sem Fronteiras (RSF) publica uma galeria de retratos sombrios: aqueles de 37 chefes de Estado ou de governo que impõem uma repressão massiva à liberdade de imprensa em todo o mundo. Alguns desses “predadores da liberdade de imprensa” estão em ação há mais de duas décadas, enquanto outros são novos nesta lista, que tem a particularidade, em 2021, de incluir pela primeira vez duas mulheres e um europeu.

A edição 2021 da galeria de predadores da liberdade de imprensa da RSF inclui 37 chefes de Estado e de governo, dos quais cerca de metade (17) são apresentados pela primeira vez, cinco anos após a lista anterior, publicada em 2016. Todos são chefes de Estado ou de governo que impõem repressão massiva, por meio do estabelecimento de aparatos de censura, prisão arbitrária de jornalistas e incitamento à violência contra eles - quando não têm nas próprias mãos o sangue de jornalistas por terem feito pressão direta ou indireta por seus assassinatos. Dezesseis dos predadores mencionados na lista estão em países classificados em preto no mapa da liberdade de imprensa e 19 se encontram em países em vermelho, ou seja, países onde a situação é considerada muito grave ou difícil para o exercício do jornalismo. Os predadores, com idade média de 66 anos, são principalmente da região da Ásia-Pacífico, que onde estão 13 dos 37 tiranos identificados pela RSF. 

 


"Agora são 37 os chefes de Estado ou governo em todo o mundo que aparecem na galeria de predadores da liberdade de imprensa da RSF, e ninguém pode dizer se esta lista é exaustiva", lamenta o secretário-geral da organização, Christophe Deloire. “Cada um desses predadores tem um jeito especial. Alguns fazem com que reine o terror, com ordens irracionais e paranóicas; outros estão implementando estratégias muito estruturadas com base em leis liberticidas. O desafio é fazer com que hoje esses predadores paguem o preço mais alto possível por essa repressão. Não deixemos que sua maneira de agir se torne 'o novo normal’".

 


Os recém-chegados

 


Entre os recém-chegados, o mais notável é, sem dúvida, o príncipe herdeiro saudita Mohammed bin Salman, 35, que concentra todos os poderes e está à frente de uma monarquia que não tolera qualquer mídia livre. O príncipe exerce uma repressão multifacetada, composta de espionagem, ameaças que às vezes levam a sequestros, atos de tortura, medidas inimagináveis. O terrível assassinato de Jamal Khashoggi em 2018 revelou um modo de predação pura e simplesmente bárbaro. Também aparecem pela primeira vez na lista, caracterizando um gênero bem diferente, o presidente brasileiro Jair Bolsonaro, cuja retórica belicosa e grosseira contra a imprensa cresceu consideravelmente desde o início da crise sanitária, e um chefe de governo europeu, o húngaro Viktor Orbán. Autoproclamado partidário da “democracia iliberal”, Viktor Orbán não cessou, desde o seu regresso ao poder em 2010, de atacar de maneira eficaz o pluralismo e a independência dos meios de comunicação. 

 


As predadoras da liberdade

 


É na Ásia que registramos, pela primeira vez, duas predadoras, uma das quais, Carrie Lam, chefia um governo que ainda era democrático quando ela assumiu. Chefe do Executivo da Região Administrativa Especial de Hong Kong desde 2017, Lam provou ser uma marionete nas mãos do presidente chinês Xi Jinping, cujas políticas liberticidas contra a imprensa ela agora apoia abertamente. Tais políticas levaram ao desaparecimento, em 24 de junho, do principal diário independente de Hong Kong, o Apple Daily, assim como à prisão de seu fundador, Jimmy Lai, vencedor em 2020 do Prêmio Especial da Liberdade de Imprensa RSF. A outra predadora é Sheika Hasina, que governa Bangladesh desde 2009. Filha do herói da independência, entre outros atos, ela aprovou uma lei de segurança digital em 2018 que serviu de base para processar mais de 70 jornalistas e blogueiros.


Os predadores históricos



Alguns predadores figuram há 20 anos na lista sinistra estabelecida pela RSF. O presidente sírio, Bashar Al-Assad, e o líder da revolução iraniana, Ali Khamenei, já faziam parte da primeira lista de predadores. Assim como, na zona do Leste Europeu-Ásia Central, os presidentes Vladimir Putin, da Rússia, e Alexander Lukashenko, de Belarus, dos quais se conhece a inventividade recente em matéria de repressão. Ao todo, 7 dos 37 chefes de Estado já haviam sido qualificados como predadores em 2001 pela RSF. Três deles são da África, que é a zona geográfica onde predadores existem há mais tempo. Teodoro Obiang Nguema Mbasogo, 79 anos, reina sobre a Guiné Equatorial desde 1979. Já o presidente Isaias Afwerki, cujo país, a Eritreia, é o último colocado no Ranking Mundial da Liberdade de Imprensa 2021, está no poder desde 1993. Quanto a Paul Kagame, primeiramente nomeado vice-presidente de Ruanda em 1994, antes de assumir o cargo supremo em 2000, poderá permanecer no poder até 2034.    

 


Para cada um dos predadores, a RSF elaborou uma ficha, revelando seus “métodos de predação”, que detalham a forma como a censura ou a repressão é organizada; e “os alvos preferidos”, que especificam que tipo de jornalistas e meios de comunicação estão em suas miras. Também são apresentados trechos de discursos ou entrevistas com predadores “justificando” a repressão, assim como o posicionamento dos diversos países no Ranking Mundial da Liberdade de Imprensa.

 


Em 2020, a RSF publicou uma lista de "Predadores digitais da liberdade de imprensa". Uma lista de predadores não estatais será publicada até o final do ano.