Notícia

18 Agosto 2021

Talibã se compromete com a RSF a respeitar a liberdade de imprensa, mas como acreditar neles?

O porta-voz do grupo Talibã, Zabihullah Mujahid, se comprometeu com a Repórteres sem Fronteiras (RSF) a não permitir que “nenhuma ameaça ou represália seja cometida contra jornalistas”. A declaração, que denota cuidado com as palavras, surge em um contexto de grande preocupação.

Em 15 de agosto de 2021, o porta-voz do grupo Talibã, Zabihullah Mujahid, declarou que o movimento respeitará a liberdade de imprensa no país. No momento em que a tomada de controle gera pânico na capital Cabul e no restante do Afeganistão, essa declaração dispõe, evidentemente, de uma credibilidade muito baixa. O Talibã possui um histórico desastroso, senão terrível. Como a RSF destacou em um relatório, “o reinado do Talibã no Afeganistão, entre 1996 e 2001, foi um período sombrio na história do país”. Todos os meios de comunicação foram proibidos, com exceção de uma estação de rádio (rádio Sharia) que transmitia apenas propaganda política e programas religiosos.

 

É interessante, entretanto, prestar atenção às palavras usadas pelo porta-voz na declaração não publicada: “Respeitaremos a liberdade de imprensa porque as informações serão úteis para a sociedade e, ao mesmo tempo, permitirão que erros dos governantes sejam corrigidos. Por meio desta declaração à RSF, dizemos ao mundo que reconhecemos a importância do papel dos meios de comunicação”. Qual é o significado dessas precauções oratórias? Teria o Talibã mudado sua política? O futuro dirá.

 

A RSF perguntou a Zabihullah Mujahid sobre a possibilidade de um compromisso por escrito: “Estamos em um período de transição e será melhor esperar alguns dias, mas eu concordo [com um compromisso por escrito]. Em todo caso, jornalistas que trabalham para meios de comunicação públicos ou privados não são criminosos e nenhum deles será processado. Para nós, esses jornalistas são civis e, além disso, são jovens talentosos que constituem a nossa riqueza. Eles não serão ameaçados. Se, em alguns lugares, os jornalistas ficaram em casa, é por causa da situação de guerra. Logo poderão trabalhar como antes. Precisamos deles para ‘quebrar’ o clima de medo que atualmente reina no país”.

 

Qual será o destino das mulheres jornalistas? “Vocês sabem que a sociedade afegã é muçulmana. Para estabelecer as regras e os éditos religiosos, tivemos muitas mortes. As mulheres jornalistas também são muçulmanas. Vamos, é claro, definir uma estrutura para questões de vestuário - o uso do Hijab - e para que as mulheres não sejam importunadas nas ruas ou em seus locais de trabalho. Mas, até que essas disposições escritas sejam promulgadas, peço que fiquem em casa, sem estresse e sem medo. Garanto-lhes que voltarão ao trabalho”.

 

Tais palavras são ditas em um contexto de intenso pessimismo. “No momento, o Talibã não está fazendo nada contra nós, mas e amanhã? O que acontecerá quando os estrangeiros forem embora e seu governo estiver instalado?”, perguntava-se um jornalista de Cabul. 

 

Amanhã já é hoje. Desde o rápido avanço do Talibã, cerca de cem meios de comunicação fecharam as portas. Com exceção dos da capital, cujos funcionários ainda estão presentes, os meios de comunicação que continuam a funcionar trabalham nas condições estabelecidas pelos novos senhores do país. Em Kandahar, uma estação de rádio já foi rebatizada de “Voz da Sharia”, o nome usual para a emblemática estação de rádio talibã entre 1996 e 2001.   

 

12.000 jornalistas e 1.741 mulheres trabalhando na mídia


No Afeganistão, existem pelo menos 8 agências de notícias, 52 canais de televisão, 165 estações de rádio e 190 publicações (diárias, semanais, mensais e de periodicidade variável). De acordo com os últimos dados da Federação de Mídia e Jornalistas do Afeganistão, há 12 mil jornalistas no país. Desse total, o CPAWJ confirmou que 1.741 mulheres trabalham no setor. Entre elas, 764 são jornalistas profissionais nas três províncias de Cabul, Herat e Balkh.

 

O Afeganistão ocupa o 122o lugar entre os 180 países do Ranking Mundial da Liberdade de Imprensa da RSF.