Notícia

24 Março 2020

"Se a imprensa chinesa fosse livre, o coronavírus talvez não tivesse se tornado uma pandemia", denuncia a RSF

PHOTO: MARK RALSTON / AFP
A Repórteres sem Fronteiras (RSF) demonstra que, sem o controle e a censura impostos pelas autoridades, os meios de comunicação chineses teriam informado muito mais cedo o público sobre a gravidade da epidemia de coronavírus, poupando milhares de vidas e, talvez, evitando a pandemia.

Em uma análise publicada em 13 de março, pesquisadores da Universidade de Southampton sugerem que o número de casos de coronavírus na China poderia ter sido reduzido em 86% se as medidas de combate à epidemia, instauradas na China a partir de 20 de janeiro, tivessem sido antecipadas em duas semanas. Com base na cronologia dos primeiros dias da crise, a Repórteres sem Fronteiras (RSF) demonstra que, sem o controle e a censura impostos pelas autoridades, os meios de comunicação chineses teriam informado muito mais cedo o público sobre a gravidade da epidemia de coronavírus, poupando milhares de vidas e, talvez, evitando a pandemia.

 

18 de outubro: a imprensa chinesa teria veiculado os resultados assustadores de uma simulação de pandemia

 

O Centro Johns Hopkins de Segurança em Saúde, em parceria com o Fórum Econômico Mundial e a Fundação Bill e Melinda Gates, realizou, em 18 de outubro de 2019, uma simulação de pandemia de coronavírus e alertou a comunidade internacional sobre seu resultado assustador: 65 milhões de mortos em 18 meses.  

 

Se a Internet chinesa não fosse isolada por um elaborado sistema de censura eletrônica e se a mídia não fosse obrigada a seguir as instruções do Partido Comunista, o público e as autoridades teriam, sem dúvida, se interessado por essa informação proveniente dos Estados Unidos e que faz eco com a epidemia de SARS (síndrome respiratória aguda grave), que causou mais de 800 mortes e afetou 8.000 pessoas principalmente na China em 2003.

 

20 de dezembro: as autoridades da cidade de Wuhan teriam informado os jornalistas

 

No dia 20 de dezembro, um mês após o primeiro caso documentado, a cidade de Wuhan já tinha 60 pacientes vítimas de uma pneumonia desconhecida semelhante à SARS, muitos dos quais haviam frequentado o mercado de peixes de Huanan. Apesar da situação, as autoridades não consideraram adequado comunicar essas informações aos meios de comunicação.

 

Se as autoridades não tivessem escondido a existência de uma epidemia associada a um mercado muito popular, o público teria parado por conta própria de visitar o local antes de seu fechamento oficial em 1º de janeiro. 

 

25 de dezembro: o doutor Lu Xiaohong poderia ter expressado seus temores à imprensa 

 

O Dr. Lu Xiaohong, diretor do departamento de gastroenterologia do Hospital Número 5 da cidade de Wuhan ouviu falar de casos de infecção afetando o pessoal médico a partir de 25 de dezembro e suspeitou, desde a primeira semana de janeiro, que a infecção fosse transmissível de humano para humano.

 

Se as fontes dos jornalistas na China não arriscassem sanções severas, que variam de advertência profissional a penas pesadas de prisão, o Dr. Lu Xiaohong teria, sem dúvida, assumido a responsabilidade de alertar os meios de comunicação, forçando as autoridades a agir três semanas mais cedo do que fizeram.

 

30 de dezembro: o alerta dos médicos teria sido veiculado pela mídia

 

A diretora da emergência do Hospital Central de Wuhan, Ai Fen, e um grupo de médicos lançaram o alerta na internet em 30 de dezembro. Oito deles, incluindo o médico Li Wenliang, mais tarde morto em consequência da doença, foram interpelados pela polícia no dia 3 de janeiro por circular "rumores falsos".

 

Se, desde essa data, a imprensa e as redes sociais tivessem conseguido veicular livremente as informações transmitidas pelos médicos que lançaram o alerta, o público teria se conscientizado do perigo e pressionado as autoridades a tomar medidas que limitassem a propagação de vírus. 

 

31 de dezembro: as redes sociais teriam retransmitido o alerta oficial na China

 

A China alertou oficialmente a Organização Mundial da Saúde (OMS) em 31 de dezembro, porém, ao mesmo tempo, obrigou a plataforma de discussão WeChat a censurar um grande número de palavras-chave que faziam referência à epidemia.

 

Sem censura, a rede social WeChat, que possui um bilhão de usuários ativos na China, teria permitido que jornalistas transmitissem reportagens e conselhos de profilaxia, contribuindo para um melhor cumprimento das regras recomendadas pelas autoridades de saúde.

 

5 de janeiro: a imprensa científica teria divulgado o genoma do coronavírus mais cedo 

 

A equipe do professor Zhang Yongzhen, do Centro Clínico de Saúde Pública de Xangai, conseguiu sequenciar o vírus já em 5 de janeiro, mas as autoridades pareciam relutantes em publicar a sequência do genoma. Em 11 de janeiro, dia em que a China confirmou sua primeira morte devido ao vírus, os pesquisadores vazam a informação em plataformas de código aberto, o que fará com que o laboratório seja fechado em represália. 

 

Se as autoridades chinesas tivessem agido com transparência, teriam comunicado imediatamente a sequência do genoma do coronavírus à imprensa científica, permitindo à comunidade internacional ganhar um tempo precioso em suas pesquisas para o desenvolvimento de uma vacina.  

 

13 de janeiro: a comunidade internacional teria antecipado o risco de uma pandemia

 

O primeiro caso de infecção por coronavírus fora da China foi registrado na Tailândia em 13 de janeiro, em um turista chinês originário de Wuhan. 

 

Se, nessa data, a mídia internacional tivesse obtido acesso total às informações mantidas pelas autoridades chinesas sobre a escala da epidemia, é provável que a comunidade internacional tivesse entendido o tamanho da crise e antecipado melhor o risco de uma propagação da epidemia fora da China, possivelmente evitando sua transformação em pandemia.

 

A China ocupa a 177ª posição entre 180 no Ranking Mundial de Liberdade de Imprensa da RSF de 2019.