Notícia

18 Junho 2019

RSF repudia ataques contra os jornalistas do The Intercept Brasil

Glenn Greenwald- Source- Gage Skidmore/ Flickr
As reportagens do The Intercept Brasil sobre a operação Lava Jato desencadearam uma enxurrada de ataques contra o jornalista norte americano Glenn Greenwald, editor chefe da agência de notícias, assim como contra sua família e colegas de trabalho. A Repórteres sem Fronteiras (RSF) denuncia um ambiente hostil ao jornalismo e pede às autoridades que garantam o sigilo da fonte e investiguem a origem das ameaças contra o The Intercept Brasil e seus representantes.

Os ataques começaram assim que o The Intercept Brasil publicou a primeira parte de uma série de reportagens que expõe graves irregularidades ocorridas durante a operação Lava Jato, investigação que revelou um dos maiores escândalos de corrupção na história do país, no último domingo 9 de junho de 2019. O primeiro alvo dos ataques foi o co-fundador e editor chefe do The Intercept Brasil, Glenn Greenwald. Em seguida, sua família e a redação como um todo. No dia 11 de junho, o deputado federal David Miranda, marido de Glenn Greenwald, denunciou publicamente algumas das mensagens sórdidas e ameaças de morte que recebeu após as revelações do The Intercept Brasil, dentre as quais um pedido de resgate no valor de 10 mil U$ em bitcoins em troca da segurança dos filhos do casal.

Nas redes sociais, insultos, mensagens caluniosas e ameaças de morte espalharam-se como rastilho de pólvora, alimentadas por informações e notícias falsas com o objetivo de descredibilizar o trabalho da equipe do The Intercept Brasil e o jornalista Glenn Greenwald, vencedor do prêmio Pulitzer em 2014, residente no Brasil. No Twitter, a hashtag DeportaGreenwald pedindo a expulsão do jornalista alcançou os trending topics no país. Uma petição online no mesmo sentido foi criada no site Change.org, que teve quase 90 mil assinaturas antes de ser retirada do ar.

As primeiras reações por parte de integrantes do governo, de alguns meios de comunicação e de personalidades diretamente apontadas nas revelações, em particular o atual ministro da justiça Sérgio Moro, se concentraram em atacar a origem do vazamento e o caráter ilegal das interceptações de mensagens privadas de Telegram, gravações em áudio, vídeos, fotos, documentos judiciais e outros itens enviados ao The Intercept Brasil por uma fonte anônima.

As autoridades brasileiras devem respeitar o direito ao sigilo da fonte, garantido pela Constituição Federal, assim como assegurar a proteção dos jornalistas do The Intercept Brasil e investigar as graves ameaças recebidas por Glenn Greenwald e sua família”, declarou Emmanuel Colombié, diretor regional da RSF para a América Latina. “Ataques contra a credibilidade de meios de comunicação que revelam informações de interesse público, comprometedoras para o governo, são infelizmente frequentes no Brasil; têm por objetivo claramente desviar a atenção do público sobre o conteúdo das revelações. Nesse episódio inédito, são ainda mais graves pois estão acompanhados de ameaças contra a integridade física do jornalistas e por uma enxurrada de insultos de caráter homofóbico e xenófobo desprezíveis”.

No Brasil, a proliferação de estratégias de desinformação e o discurso público cada vez mais orientado pela crítica à imprensa estão alavancando o sentimento de desconfiança para com o jornalismo. Uma desconfiança que tem se materializado frequentemente em discurso de ódio, campanhas de difamação, linchamentos virtuais, processos judiciais abusivos e acaba estimulando a autocensura. Os profissionais de imprensa no Brasil estão, de maneira geral e em particular com a chegada ao poder do presidente Bolsonaro, confrontados a um ambiente cada vez mais hostil ao livre exercício do jornalismo.

As reportagens publicadas pelo The Intercept Brasil revelam uma colaboração proibida do ex-juiz e atual ministro da justiça, Sérgio Moro, com o procurador Deltan Dallagnol e a força-tarefa da operação Lava Jato durante a investigação.

O Brasil ocupa o 105° lugar entre 180 países, após ter caído 3 posições no Ranking Mundial da Liberdade de Imprensa de 2019, estabelecido pela RSF.