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17 Novembro 2016 - Atualizado a 5 Dezembro 2016

A RSF publica sua lista negra de predadores da liberdade de imprensa

Por ocasião do dia mundial de luta contra a impunidade em crimes cometidos contra jornalistas, a Repórteres sem Fronteiras (RSF) publica, no dia 2 de novembro, uma série sombria de retratos: 35 chefes de estado, políticos, líderes religiosos, milícias e organizações criminosas que censuram, aprisionam, torturam ou assassinam jornalistas. A maioria desses predadores tem causado danos há anos, até mesmo décadas.

Para denunciar a impunidade de seus crimes, a RSF elaborou para cada um desses predadores uma ficha descrevendo suas técnicas de ataque preferidas, seus braços armados, seus alvos favoritos, seu discurso oficial - entre ameaças e negação - e seus troféus de caça, todos muito reais. As fichas lembram ainda, para cada predador, a lamentável pontuação de seu país no Ranking mundial da liberdade de imprensa criado pela RSF.



Suas técnicas são variadas. Alguns torturam e assassinam por meio de seus braços armados, outros realizam detenções em massa e prisões arbitrárias, outros ainda utilizam maneiras mais dissimuladas - por meio de leis antiterrorismo, de crimes de lesa-majestade ou de asfixia financeira. A lista não é exaustiva e os predadores nela presentes são os que mais se destacaram no período 2015-2016.

"Esses predadores são aqueles que mais pisoteiam a liberdade de imprensa e que cometem as piores atrocidades contra jornalistas, sem serem perturbados, denuncia Christophe Deloire, secretário geral da RSF. Para romper esse ciclo infernal de impunidade, é preciso nomear um representante especial nas Nações Unidas de forma a proteger melhor os jornalistas."


35
Predadores esmagam a liberdade de imprensa
e cometem atrocidades contra jornalistas
Um predador caça o outro



A maioria dos predadores é composta de chefes de estado ou de governo, de Cingapura à Tailândia e Cuba, passando por Eritreia, Burundi, República Democrática do Congo ou Sudão do Sul... Entre os recém-chegados está o presidente turco Recep Tayyip Erdogan, que controla, a partir de agora, os principais grupos jornalísticos do país. O estado de emergência declarado em 2016, na esteira do golpe de estado fracassado, deu a ele a oportunidade de prender mais de 200 jornalistas e de fechar mais de 100 jornais, revistas, televisões e rádios.



Outro adepto das capturas em massa e das detenções arbitrárias é o presidente egípcio Abdel Fattah Al-Sissi, eleito em 2014 após o golpe de estado militar de 3 de julho de 2013. O regime persegue qualquer pessoa ligada de maneira próxima ou distante à Irmandade Muçulmana. No mesmo estilo, o primeiro ministro tailandês, Prayut Chan-O-Cha, chefe da junta, amordaça, desde a instauração da lei marcial em maio de 2014, jornalistas, mídias, blogueiros, assim como artistas, intelectuais, universitários, membros da oposição política... No Burundi, Pierre Nkurunziza comandou em 2015 uma forte campanha de repressão contra as mídias, começando por aquelas que haviam coberto a tentativa de golpe promovida por opositores que contestavam seu desejo de ser reeleito, que contraria a Constituição.




A repressão assume formas variadas:



Assédio jurídico, prisões arbitrárias, proibições de difusão ou de publicação, espancamentos, torturas, desaparecimentos. Na Arábia Saudita, o rei Salmane ben Abdelazi Al Saoud sucedeu seu irmão Abullah e trouxe consigo toda a herança de uma dinastia desde sempre hostil à liberdade de imprensa. Na Venezuela, o presidente Nicolás Maduro possui suas próprias artimanhas para combater a imprensa: aquisições realizadas por amigos seus (como o caso do jornal El Universal e do canal Globovision) seguidas de ondas de demissões, sufocamento da imprensa por meio escassez de papel organizada com inteligência, ou ainda uma lei que criminaliza todo conteúdo que possa "questionar a autoridade legítima constituída".

A galeria dos predadores



Entre os extremistas religiosos, o grupo Estado Islâmico não hesita em semear o terror, assassinando e sequestrando os jornalistas que não jurem lealdade a eles. Encontra-se também na lista Ansarullah Bangla Team, o movimento extremista islamista do Bangladesh que publica no Facebook nomes de "blasfemadores" - blogueiros laicos e livres pensadores - conclamando a que sejam assassinados. No Afeganistão e no Paquistão, os Talibãs não recuaram nada em sua barbárie assassina. As zonas controladas por eles são verdadeiros buracos negros de informação onde o trabalho jornalístico é impossível. Finalmente, como deixar de mencionar os Houthis, movimento político do Iêmen que tomou o controle da capital Sanaa e da maior parte do país em 2014? A milícia se apossou dos canais de televisão (Al-Jazeera, Al-Yamane-Chabab, Yemen-Digital Media); são incontáveis os casos de sequestro e desaparecimento de jornalistas e inúmeros os relatos de torturas nas prisões.

No México, o sanguinário cartel Los Zetas teve vários de seus chefes presos, mas continua com sua campanha de terror por meio de assassinatos, sequestros e atos de barbárie.



Desde 2013, alguns predadores desapareceram, seja porque não estão mais no poder, como Mahinda Rajapaksa do Sri Lanka, seja porque morreram, como Islam Karimov e o mulá Mohammad Omar, ou porque não têm feito alarde, como no caso dos grupos rebeldes e paramilitares da Colômbia: o acordo de paz assinado em setembro com o governo, mesmo rejeitado em referendo, traz a esperança de dias mais tranquilos para os jornalistas daquele país.