Notícia

11 Março 2020 - Atualizado a 12 Março 2020

RSF divulga a lista 20/2020 de Predadores Digitais da Liberdade de Imprensa 

Por ocasião do Dia Mundial de Luta contra a Cibercensura, 12 de março, a Repórteres sem Fronteiras (RSF) divulga uma lista de 20 Predadores Digitais da Liberdade de Imprensa de 2020. Perseguindo os jornalistas, essas empresas, organizações e governos colocam em risco a nossa capacidade de nos informar. 

A lista não é exaustiva, mas esses 20 Predadores Digitais da Liberdade de Imprensa representam em 2020 um perigo evidente para a liberdade de expressão, garantida pelo artigo 19 da Declaração Universal do s Direitos Humanos. Por ocasião do Dia Mundial de Luta contra a Cibercensura, criado por iniciativa da Repórteres sem Fronteiras (RSF), a organização publica pela primeira vez uma lista de entidades cuja atividade pode ser definida como predação do trabalho jornalístico. 

 

Nessa lista 20/2020, composta pelos 20 principais predadores digitais de 2020, quatro categorias são identificadas, segundo a adoção por essas entidades de processos de perseguição, censura de Estado, desinformação ou espionagem e vigilância. Infraestatais, provadas, ou mesmo informais, essas entidades revelam uma realidade do poder ao final das primeiras décadas do século XXI: os jornalistas investigativos, e todos que desagradam, podem ser alvo de agentes, por vezes, ocultos.

 

Alguns Predadores Digitais operam agora em países despóticos, governados por Predadores da Liberdade de Imprensa já repertoriados pela RSF.  Mas algumas empresas privadas especializadas em ciberespionagem direcionada localizam-se em países ocidentais como os Estados Unidos, o Reino Unido, a Alemanha e Israel.

 

O poder desses inimigos da informação livre na Internet é multiforme. Eles buscam, identificam e vigiam os jornalistas que incomodam os poderes estabelecidos. Eles os intimidam, organizando sua perseguição online. Eles os silenciam ao censurá-los de maneiras diferentes. Tentam, até mesmo, desestabilizar os países democráticos, difundindo voluntariamente informações falsas. 

 

"Os homens fortes autoritários, que organizam a predação da liberdade de imprensa, estendem sua atuação no mundo digital graças a tropas de cúmplices, subordinados e reservas que também são predadores digitais determinados e organizados, explica Christophe Deloire, secretário geral da RSF. Decidimos publicar uma lista de 20 predadores digitais para revelar uma outra realidade das violações à liberdade de imprensa, mas também para chamar a atenção para o fato de que esses reservas agem, por vezes, a partir dos países democráticos ou em seu interior. Opor-se aos regimes despóticos também pressupõe que as armas da repressão ao jornalismo não lhes sejam entregues do estrangeiro".

A LISTA DOS 20 PREDADORES DIGITAIS DE 2020



PERSEGUIÇÃO
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NAME : Os Yodas de Modi
PAÍS: Índia


MEIO(S) UTILIZADO(S):

Insultos, incitação ao estupro e ameaças de morte nas redes sociais

ALVO(S) IDENTIFICADO(S):

Autora dos Gujarat Files, uma investigação livre sobre a ascensão ao poder do atual primeiro ministro Narendra Modi, a jornalista Rana Ayyub é um dos alvos privilegiados dos milhões de "Yodas" - trolls voluntários ou empregados remunerados a serviço do partido nacionalista hindu no poder, o Bharatiya Janata Party (BJP) Swati Chaturvedi, jornalista e autora de I Am a Troll: Inside the Secret World of the BJP’s Digital Army, uma investigação sobre o exército digital a serviço da direita nacionalista hindu, também é um alvo frequente



NOME: Os exércitos de trolls do Kremlin
PAÍS: Rússia



MEIO(S) UTILIZADO(S):

Propagação de informações e vídeos falsos, publicação de informações pessoais ("doxxing"), difamação.

ALVO(S) IDENTIFICADO(S):

Desde que começou a investigar sobre os trolls do Kremlin, a jornalista investigativa finlandesa Jessikka Aro tornou-se um de seus alvos. Na recente investigação livre Putin’s Troll Army, ela revela as atividades de propaganda desses trolls contra aqueles que denunciam suas ações. Os profissionais da informação estão entre seus alvos preferidos. Por exemplo, o jornalista russo Igor Yakovenko e os jornalistas estrangeiros baseados em Moscou, Isabelle Mandraud, ex-correspondente do Le Monde, e Shaun Walker, correspondente do Guardian, revelaram serem com frequência alvos desse exército de trolls. 



NOME: O "gabinete do ódio" de Bolsonaro
PAÍS: Brasil




MEIO(S) UTILIZADO(S): 

Campanha de insultos e de ameaças nas redes sociais

ALVO(S) IDENTIFICADO(S):

A deputada Joice Hasselmann, ex-aliada do presidente Bolsonaro, revelou a existência de um "gabinete do ódio" que publica, em grande escala, ataques contra jornalistas. O grupo, composto por conselheiros próximos ao presidente e coordenado por seu filho Carlos, tem na sua mira, entre outros, os jornalistas Patricia Campos Mello, Constança Rezende e Glenn Greenwald. Suas revelações sobre o governo brasileiro fazem com que sejam frequentemente vítimas de campanhas de ódio nas redes sociais.



NOME: As moscas eletrônicas do governo argelino
PAÍS: Argélia




MEIO(S) UTILIZADO(S):

Denúncias abusivas de páginas e perfis contestadores nas redes sociais, para incitar a plataforma a fechá-los. Publicação de informações pessoais, diluição de informações, comentários virulentos, ataques pessoais, chantagem, estigmatização

ALVO(S) IDENTIFICADO(S):

O objetivo deste exército de trolls pagos pelo governo é desacreditar todos os jornalistas críticos do atual governo. Desde que começaram a cobrir os movimentos de contestação popular na Argélia, o jornalista independente e correspondente da RSF, Khaled Drareni, e dois jornalistas que também cobriram a manifestação do Hirak, Lamine Maghnine e Redouane Boussag, tornaram-se alvos cotidianos. Os dois últimos, até hoje, não têm acesso à sua conta de Facebook.


NOME: Gangues de trolls mexicanos
PAÍS: México




MEIO(S) UTILIZADO(S):

Denigração, ameaças e insultos nas redes sociais

ALVO(S) IDENTIFICADO(S):

Por ter questionado o presidente Andrés Manuel Lopez Obrador sobre sua decisão de libertar o filho do barão da droga El Chapo, inúmeros jornalistas, entre os quais destaca-se Irving Piñeda, repórter da TV Azteca, foram atacados durante vários dias por trolls. Esses ataques são cada vez mais frequentes e, com frequência, dirigidos a mulheres: em novembro de 2019, Silvia Chocarro, que representava uma coalizão de ONGs de defesa da liberdade de expressão, incluindo a RSF, também foi vítima. Os trolls se aliavam usando, especialmente, as hashtags #PrensaCorupta, #PrensaSicaria e #PrensaProstituida , significando, respectivamente, "imprensa corrompida", "imprensa mercenária" e "imprensa prostituída".



CENSURA DE ESTADO

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NOME: Roskomnadzor, Autoridade federal de controle das comunicações e meios de comunicação russos
PAÍS: Rússia




MEIO(S) UTILIZADO(S):

Bloqueio de sites da Internet e de aplicativos

ALVO(S) IDENTIFICADO(S):

O Roskomnadzor, autoridade oficial de controle dos meios de comunicação da Rússia, bloqueou mais de 495 mil sites da Internet , sem respeitar o procedimento legal nem enviar notificação antecipada. Ele possui uma lista negra, secreta, de sites a serem proscritos. Seus alvos são agências de notícias como a Ferghana, sites de investigação como o Listok e o Grani.ru e revistas políticas como a ej.ru ou a mbk.news. Ele também bloqueia os sites e aplicativos que se recusem a armazenar seus dados em servidores localizados na Rússia, ou a entregar às autoridades suas chaves de desencriptação de mensagens.  É o caso do serviço de correio eletrônico criptografado ProtonMail, que foi parcialmente bloqueado em janeiro de 2020. 



NOME: Conselho Supremo do Ciberespaço Iraniano
PAÍS: Irã




MEIO(S) UTILIZADO(S):

Acesso seletivo e controle da Internet, bloqueio de sites de notícias e aplicativos como Telegram, Signal, Whatsapp, Facebook e Twitter

ALVO(S) IDENTIFICADO(S):

Criado em março de 2012, esse órgão, composto por altas personalidades militares e políticas, é o arquiteto da "Internet halal", rede nacional iraniana separada do restante do mundo. Ele constrói um muro digital utilizando técnicas de filtragem da Internet. Cada vez mais, recorrem aos cortes de Internet para conter e reprimir os movimentos de contestação no país e para limitar a transmissão e a difusão de informações independentes, consideradas como tentativas "contrarrevolucionárias subversivas".


NOME: Ministério do Interior Indiano
PAÍS: Índia


MEIO(S) UTILIZADO(S):

Corte das telecomunicações

ALVO(S) IDENTIFICADO(S):

Em 5 de agosto de 2019, o Ministério do Interior indiano cortou totalmente as comunicações telefônicas e de Internet no estado de Jammu e Caxemira. Essa medida extrema impede que os jornalistas caxemires trabalhem livremente e priva os cidadãos da região de um acesso a informações independentes. Seis meses depois, o governo restabeleceu parcialmente as conexões em banda larga, mas o acesso a inúmeros sites permanece fortemente aleatório. A Índia é o país que mais recorre aos cortes da Internet, 121 em 2019.



NOME: Comissão Nacional de Telecomunicações (Conatel)
PAÍS: Venezuela


MEIO(S) UTILIZADO(S):

Bloqueios de sites da Internet e de aplicativos

ALVO(S) IDENTIFICADO(S):

Controlada secretamente pelo governo, a Conatel pode ordenar o bloqueio de sites da Internet que desagradem o poder estabelecido. Vários sites de notícias, entre os quais infobae.com, elpitazo.com, dolartoday.com e armando.info, foram assim fechado definitivamente, sem nenhuma possibilidade de recurso. A Conatel também organiza o bloqueio temporário de redes sociais, especialmente o Facebook, sobretudo quando o líder da oposição, Juan Guaidó, transmite seus discursos ao vivo pela rede social.  


NOME: A Administração do Ciberespaço Chinês (CAC)
PAÍS: China


MEIO(S) UTILIZADO(S):

Censura da Internet e supervisão das plataformas privadas como Baidu, WeChat, Weibo e TikTok; bloqueio e supressão de conteúdos e de aplicativos.

ALVO(S) IDENTIFICADO(S):

Desde o surgimento da epidemia de coronavírus, o órgão chinês de controle da Internet reforçou ainda mais sua luta contra a propagação de rumores. Contas de mídias e de blogueiros foram apagadas das redes sociais e vários veículos de comunicação foram censurados, como a Caijing, revista baseada em Pequim, que publicou um relatório sobre casos de infecção não repertoriados. 




NOME: Conselho supremo de regulação das mídias egípcias
PAÍS: Egito



MEIO(S) UTILIZADO(S):

Bloqueios de sites de notícias e de aplicativos de mensagem instantânea

ALVO(S) IDENTIFICADO(S):

Para amordaçar a imprensa, este órgão estatal bloqueia sites de meios de comunicação para publicação de informações falsas. No momento, mais de 500 sites da Internet estão inacessíveis, entre os quais os da RSF, da  BBC e da rede americana em árabe Al-Hurra. Até final de setembro de 2019, o Conselho bloqueava 11 aplicativos de mensagem, sobretudo Wicker e Signal. Também tentou bloquear o acesso aos correios do Wire e do Facebook.



DESINFORMAÇÃO

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NOME: Força 47 vietnamita
PAÍS: Vietnã




MEIO(S) UTILIZADO(S):

Campanhas de "reinformação" nas redes sociais

ALVO(S) IDENTIFICADO(S):

Esse exército de 10 mil cibermilitares, dirigido pelo Ministério da Segurança Pública, persegue "os abusos" e as "forças reacionárias", ou seja, opostas ao governo vietnamita. Em 9 de janeiro, após um incidente mortal em Dong Tam cuja gestão pelas autoridades foi fortemente criticada, a Força 47 divulgou nas redes sociais confissões forçadas de cidadãos admitindo ter fabricado bombas de combustível e outras armas para atacar a polícia.



NOME: Os "Call center hubs" das Filipinas
PAÍS: Filipinas


MEIOS(S) UTILIZADO(S):

 Difusão de informações falsas e memes falaciosos, campanhas de perseguição direcionadas, informações falsas ou truncadas

ALVO(S) IDENTIFICADO(S) :

Nas Filipinas, os partidários do presidente Duterte lançaram uma campanha de denigração e de boicote da rede de televisão ABS-CBN, com o objetivo de revogar sua licença de funcionamento. Chegaram ao ponto de denunciar um complô imaginário  cujo objetivo alegado seria reunir diversos meios de comunicação independentes para derrubar o presidente. Desde a campanha de 2016, os exércitos de trolls cibernéticos tornaram-se uma indústria próspera. Eles apoiam a amplificam as mensagens  dos membros do governo com o objetivo de denegrir os meios de comunicação e manipular a opinião pública.


NOME: Brigada eletrônica saudita
PAÍS: Arábia Saudita:




MEIOS(S) UTILIZADO(S):

Propagação de informações falsas e de discursos de ódio

ALVO(S) IDENTIFICADO(S) :

Essa rede de trolls a favor do regime e de robôs criada por Saud Al-Qahtani, quando era conselheiro do príncipe herdeiro da Arábia Saudita, produz atualmente mais de 2.500 tweets por dia. Promove, sobretudo, conteúdos do canal conservador de notícias via satélite Saudi 24. A rede é responsável pela propagação de discursos de ódio sectário, de antissemitismo e de teorias conspiratórias sobre o jornalista assassinado Jamal Khashoggi, assassinato do qual Saud Al-Qahtani foi um dos instigadores.



NOME: Unidade jihadista cibernética sudanesa
PAÍS: Sudão




MEIOS(S) UTILIZADO(S):

Espionagem nas redes sociais, fabricação e propagação de informações falsas

ALVO(S) IDENTIFICADO(S) :

Criado pouco depois da eclosão da primavera árabe, esse exército de trolls sob o comando do serviço de inteligência sudanês espionou ativistas, líderes políticos e jornalistas nas redes sociais.  Mensagens ou artigos contendo informações falsas com o objetivo de desacreditar o governo de transição ou de defender os caciques do antigo regime também são difundidas por essa unidade.



ESPIONAGEM-VIGILÂNCIA

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NOME: NSO Group (Q Cyber Technologies) 
PAÍS: Israel




MEIOS(S) UTILIZADO(S):

Softwares de vigilância que utilizam uma falha do Whatsapp para instalar um vírus nos aparelhos visados, enviando a estes arquivos infectados que se abrem automaticamente.

 ALVO(S) IDENTIFICADO(S) :

Segundo especialistas das Nações Unidas, um software da NSO foi provavelmente usado pelo reino da Arábia Saudita para vigiar o jornalista Jamal Khashoggi alguns meses antes de seu assassinato, infiltrando-se nos telefones de três de seus sócios. Vários jornalistas foram vítimas do software espião, destacando-se Ben Hubbard do New York Times, ou ainda Griselda Triana, esposa do jornalista mexicano assassinado Javier Valdez Cárdenas, assim como inúmeros colegas seus. Recentemente, 1.400 aparelhos foram infectados via Whatsapp, incluindo os de jornalistas indianos, entre os quais o correspondente da RSF na Índia. 

 


NOME: Memento Labs (ex-Hacking team)
PAÍS: Suíça, Itália, Arábia Saudita




MEIOS(S) UTILIZADO(S):

Ferramentas de vigilância capazes de extrair arquivos de um aparelho alvo, de interceptar e-mails e mensagens instantâneas, ou de ativar à distância a webcam ou o microfone de um aparelho.

ALVO(S) IDENTIFICADO(S) :

Entre os dois softwares provavelmente usados para infectar o telefone do proprietário do Washington Post, Jeff Bezos, está aquele fabricado por essa empresa. Mais discreta nos últimos anos, ela já havia sido objeto de controvérsia há alguns anos quando um dos seus produtos, vendido exclusivamente a governos, havia permitido visar jornalistas marroquinos do Mamfakinch e jornalistas etíopes da Ethiopian Satellite Television Service (ESAT).


NOME: Zerodium (ex-Vupen)
PAÍS: Estados Unidos




MEIOS(S) UTILIZADO(S):

Procura por falhas de segurança em softwares e serviços de Internet e revende a terceiros interessados.

ALVO(S) IDENTIFICADO(S) :

Para identificar falhas inéditas em programas de uso difundido, a Zerodium remunera hackers do mundo inteiro para descobri-las.  Uma vez identificadas e exploradas as vulnerabilidades, as informações são revendidas, segundo a empresa, a "órgãos governamentais principalmente europeus e norte americanos". Uma dessas falhas permitiu estabelecer a vigilância de um blogueiro emiradense crítico do governo, Ahmed Mansoor, que trabalhava sobre as violações dos direitos humanos em seu país. Ele está, hoje, preso nos Emirados Árabes Unidos, acusado, sobretudo, de ter publicado informações falsas com o objetivo de prejudicar a reputação do país.


NOME: Mollitiam Industries
PAÍS: Espanha




MEIOS(S) UTILIZADO(S): 

Ferramentas de interceptação de conversas telefônicas e de e-mails.

ALVO(S) IDENTIFICADO(S):

Esse software de vigilância foi comprado pelo exército colombiano, entre outros, que o utilizou para vigiar ilegalmente magistrados da Corte Suprema, políticos de diferentes partidos, assim como jornalistas e suas fontes. Entre os quais, jornalistas da revista Semana, destacando-se o seu diretor, Alejandro Santos, após a publicação de investigações sobre crimes e delitos cometidos por militares. 



NOME: Gamma International
PAÍS: Alemanha, Reino Unido




MEIOS(S) UTILIZADO(S):

Ferramentas de vigilância e de intrusão que permitem acessar aplicativos e dados pessoais armazenados em telefones - conversas, fotos, dados de GPS, etc.

ALVO(S) IDENTIFICADO(S):

A empresa é suspeita de ter vendido ilegalmente o software espião Finspy à Turquia, que o utilizou para espionar ativistas e jornalistas. Ele foi encontrado numa versão falsa do site de oposição turco Adalet, criado para ajudar os ativistas a se coordenar durante manifestações contra o presidente turco Recep Erdogan no verão de 2017. A RSF Alemanha e várias organizações da sociedade civil prestaram queixa contra a empresa. A investigação está em andamento.