Notícia

14 Setembro 2020

Quem é Khaled Drareni, símbolo da liberdade de imprensa na Argélia?

O jornalista Khaled drareni, condenado a três anos de prisão no início de agosto, saberá o veredito do recurso na terça-feira, dia 15. A Repórteres sem Fronteiras (RSF) lembra o percurso daquele que se tornou um verdadeiro símbolo da liberdade de imprensa na Argélia e revela as pressões e as tentativas de corrupção das quais ele foi alvo.

Seu percurso profissional


Khaled Drareni, 40 anos, iniciou sua carreira de jornalista em 2004, trabalhando na imprensa escrita (La TribuneAlgérie News) antes de começar a atuar no rádio (Radio Algérie Internationale, o Canal 3 da Radio Alger) e na televisão. Em 2012, foi apresentador do programa de debate político Dzaïr TV, "Controverse", e desencadeou uma forte polêmica ao espantar-se com a declaração do primeiro ministro à época, que comparou a candidatura do presidente Bouteflika com um "dom divino". Khaled Drareni tornou-se, em seguida, editor e âncora do "19 Info", primeiro jornal televisionado em francês do canal Echourouk. No dia 1o de novembro de 2017, fundou o site de notícias Casbah Tribune. Em 2016, o jornalista passou a trabalhar também como correspondente na Argélia para a TV5 Monde e, em 2017, para a RSF. Para o Casbah Tribune e a TV5 Monde, ele cobriu o movimento de contestação do Hirak, que se iniciou em 22 de fevereiro, em Alger. 


Três tentativas de intimidação

  • No dia 14 de maio de 2019, enquanto cobria uma manifestação estudantil em Alger, Khaled Drareni foi detido pelo serviço geral de inteligência que pede a ele que seja menos virulento em relação ao chefe do exército e que promova em seus artigos a ideia de um "diálogo" entre as forças armadas e os políticos. 
  • Em 9 de agosto de 2019, ele foi detido durante uma manifestação. Seu telefone foi apreendido, ele foi revistado e interrogado por 45 minutos. Antes de ser liberado, os policiais o intimam a não mais cobrir as manifestações de sexta-feira em Alger. 
  • No dia 9 de janeiro de 2020, Khaled Drareni foi preso e levado a um batalhão do exército em Alger, onde o repreenderam por suas publicações "subversivas, falaciosas e tendenciosas". O jornalista foi avisado de que aquele seria o último aviso antes que seu caso fosse enviado à justiça. Finalmente, o jornalista foi preso em 29 de março de 2020 e enviado à penitenciária de Koléa, perto de Tizapa.


Duas tentativas de corrupção 

  • No dia 4 de março de 2019, um alto responsável argelino oferece a Khaled um apartamento e um local para fundar uma nova associação, em troca de sua ajuda para canalizar os manifestantes através das redes sociais. Khaled Drareni recusa imediatamente a proposta. 
  • Em 30 de dezembro de 2019, ele é levado por um oficial da Segurança Interior ao batalhão de Antar (ligado à Direção de Contraespionagem do Departamento de Inteligência e Segurança). No local, um coronel e um comandante o repreendem por certos tuites e publicações no Facebook, ao mesmo tempo em que oferecem a ele cargos importantes, como o de diretor da Rádio Argelina. Nova recusa de Khaled Drareni.  


Os fatos recriminados

  • Khaled Drareni é acusado de atentado à integridade do território nacional, principalmente, com base em duas publicações nas redes sociais. Ele é acusado, sobretudo, de ter escrito:  "Esse sistema se renova o tempo todo e recusa-se a mudar, quando clamamos pela liberdade de imprensa, nos respondem com corrupção e dinheiro, dinheiro não compra tudo. Viva a liberdade de imprensa"
  • Khaled Drareni também é acusado não possuir "nenhum documento oficial emitido pela autoridades competentes capaz de provar seu status de jornalista" e de ter "recebido uma remuneração por serviços prestados a um veículo de imprensa estrangeiro, a TV5, sem apresentar provas de sua certificação legal como correspondente". 
  • A justiça argelina também acusa Khaled Drareni de ter compartilhado em sua página do Facebook, três dias antes das eleições presidenciais de 12 de dezembro de 2019, um "Comunicado do Partido da Alternativa Democrática" conclamando a uma greve geral e a boicotar as eleições, e de ter publicado, em 11 de fevereiro de 2020, outro comunicado, simplesmente intitulado "comunicado importante", conclamando a uma greve geral.  O jornalista explicou, por duas vezes, diante do juiz, ter simplesmente transmitido uma informação.


O que dizem dele os seus colegas

  • "Cada vez que eu era detido ou convocado pela polícia, ele estava entre os primeiros a escrever para dar o alerta e denunciar essa forma de intimidação contra os jornalistas, que viola os direitos de nossa profissão, assim como os direitos de nossos concidadãos de obter informações confiáveis". Mustapha Bendjama, editor do diário Le Provincial.
  • "Eu aprendi muito ao lado dele. Seu objetivo é que sejamos independentes e honestos no exercício de nossa profissão. Khaled é apreciado e conhecido por sua coragem, seu profissionalismo e seu rigor exemplares. Ele faz muita falta a sua família e seus amigos, que, hoje, contradizem uma de suas tiradas frequentes: "ninguém é indispensável", pois ele simplesmente é". Moncef Ait Kaci,jornalista.
  • Desde o início do Hirak, Khaled era como a nossa bússola em direção à verdade. Ele fotografava e transmitia tudo o que acontecia, tanto nas manifestações a favor do Hirak, quanto naquelas favoráveis ao regime. Ele sempre gostou do trabalho bem feito e sempre insistiu em garantir a veracidade de uma informação antes que ela fosse publicada". Madjeda Zouine, jornalista no Casbah Tribune.


A Argélia ocupa o 146o lugar de 180 no Ranking Mundial da Liberdade de Imprensa 2020, estabelecido pela RSF. O país perdeu cinco posições com relação a 2019 e 27 quando comparado a 2015.