Notícia

8 Novembro 2021

Prêmio RSF 2021 para a liberdade de imprensa: divulgada a lista de indicados

O prêmio Repórteres sem Fronteiras (RSF) para a liberdade de imprensa de 2021 será entregue no dia 18 de novembro. Jornalistas e veículos de comunicação de 11 países foram indicados em três categorias: coragem, impacto e independência do jornalismo.

Há quatro nomeados por categoria, ou seja, doze indicados no total: seis jornalistas, incluindo quatro mulheres, e seis veículos de comunicação ou organizações de jornalistas, sobretudo especializadas em investigação, em lugares onde direito de informar é pouco respeitado: Belarus, China, Brasil, Turquia ou mesmo Irlanda do Norte (Reino Unido). 

 

Desde 1992, o Prêmio incentiva, apoia e recompensa o trabalho de um jornalista ou meio de comunicação que tenha dado uma contribuição significativa para a defesa ou promoção da liberdade de imprensa no mundo. Mais de cinquenta homens, mulheres, redações ou organizações, que têm em comum seu compromisso com o jornalismo, já receberam o prêmio.

 

“A lista de indicados para a edição de 2021 reflete os desafios enfrentados por jornalistas e meios de comunicação engajados em uma luta comum pela liberdade de informação”, afirma Christophe Deloire, secretário-geral da RSF. “Esses homens, mulheres e veículos lutam com coragem e determinação contra forças que convergem para enfraquecer a independência do jornalismo. Em muitos países, profissionais da informação são com frequência ameaçados, processados ou presos. Meios de comunicação são censurados, estigmatizados, marginalizados, banidos ou fechados. O Prêmio RSF é uma homenagem mas, acima de tudo, um apoio a todos aqueles que encarnam os ideais do jornalismo”, completa.

 

O júri da 29ª edição, coordenado pelo presidente da RSF, Pierre Haski, é composto por eminentes jornalistas e defensores da liberdade de expressão em todo o mundo: Rana Ayyub, jornalista indiana e colunista de opinião do The Washington Post; Raphaëlle Bacqué, importante repórter francesa do jornal Le Monde; Mazen Darwish, advogado sírio e presidente do Centro Sírio para a Mídia e a Liberdade de Expressão; Zaina Erhaim, jornalista e consultora de comunicação síria; Erick Kabendera, jornalista investigativo da Tanzânia; Hamid Mir, jornalista, colunista e escritor paquistanês; Frederik Obermaier, jornalista investigativo do jornal Süddeutsche Zeitung, de Munique/Alemanha; Mikhail Zygar, jornalista e editor fundador do único canal de TV independente da Rússia, Dozhd.


Os indicados ao Prêmio de Coragem são:

KAY ZON NWAY (MYANMAR)

Jovem jornalista experiente, Kay Zon Nway é símbolo da corajosa luta pela liberdade de informar em Myanmar, que a levou à prisão, após sua detenção em 26 de fevereiro, enquanto cobria (em transmissão "ao vivo”) um protesto contra o golpe no país. Depois de 124 dias presa, foi libertada em 1o de julho. Kay Zon Nway é também símbolo da geração de repórteres que começou a trabalhar durante o intervalo democrático em Myanmar (2011-2021) e considera inconcebível dobrar-se à censura imposta pelo regime. Ela faz parte da equipe do Mianmar Now, veículo de comunicação histórico da liberdade de imprensa no país.

Zhang Zhan (China) 


Essa advogada que se tornou jornalista foi condenada em 28 de dezembro de 2020 a quatro anos de prisão, por ter "fomentado brigas e causado distúrbios" ao cobrir a epidemia de Covid-19 na cidade de Wuhan, em fevereiro de 2020. Apesar das constantes ameaças das autoridades, ela transmitiu ao vivo (no YouTube, Wechat e Twitter) imagens de ruas e hospitais e documentou o assédio de que foram vítimas as famílias dos doentes. Suas reportagens, amplamente compartilhadas nas redes sociais, foram uma das principais fontes de informações independentes sobre a situação sanitária em Wuhan. Presa em maio, mantida incomunicável e sem justificativa oficial por vários meses, Zhang Zhan entrou em greve de fome, fazendo com que fosse amarrada e alimentada à força por um cateter. No momento, o temor de que sofra novas torturas e maus-tratos ainda é grande.

Patricia Devlin, Irlanda de Norte (Reino-Unido)

Jornalista especializada em temas criminais do semanário da Irlanda do Norte Sunday World, Patricia Devlin trabalhou em toda a ilha e atualmente mora em Belfast. Suas investigações sobre o crime organizado e atividades paramilitares colocaram ela e sua família sob grande pressão e alvo de graves ameaças, particularmente obscenas e sexistas, que ela corajosamente denunciou. A jornalista moveu duas ações na Justiça, uma contra a Polícia da Irlanda do Norte, por sua incapacidade de investigar de forma justa a situação perigosa em que se encontra, e outra contra o Facebook, a fim de obter informações sobre um usuário que ameaçou estuprar o bebê que ela tinha acabado de ter.

Confidencial (Nicaragua)



Fundado em 1996 pelo jornalista Carlos Fernando Chamorro, Confidencial é um semanário nicaraguense conhecido por seu jornalismo investigativo e um dos poucos veículos de comunicação independentes que ainda existem no país. Em 20 de maio último, o governo de Daniel Ortega ordenou que a redação fosse revistada e, em seguida, prendeu os jornalistas que cobriam a operação. A polícia confiscou servidores, computadores, gravações de TV e câmeras. Em 13 de dezembro de 2018, a sede do Confidencial já havia sido revistada pela polícia sem mandado. A censura e os ataques à mídia independente se intensificaram desde então. 


Os indicados ao Prêmio de Impacto são:

PEGASUS PROJECT (INTERNACIONAL)

O Pegasus Project é uma pesquisa publicada por um consórcio internacional de mais de 80 jornalistas de 17 meios de comunicação* de 11 países diferentes, coordenado pela organização Forbidden Stories (originalmente lançada pela RSF), com suporte técnico de especialistas do Laboratório de Segurança da Anistia Internacional. Com base no vazamento de mais de 50 mil números de telefone, o Pegasus Project revelou como quase 200 jornalistas foram espionados por 11 Estados, entre regimes autocráticos mas também democráticos. A investigação alertou as pessoas sobre a extensão da vigilância a que os jornalistas podem ser submetidos. Isso levou a RSF e muitos meios de comunicação a registrar queixa e exigir uma moratória sobre essas tecnologias de vigilância.

 

*(Aristegui Noticias, Daraj, Die Zeit, Direkt 36, Knack, Forbidden Stories, Haaretz, Le Monde, Organized Crime and Corruption Reporting Project, Proceso, PBS Frontline, Radio France, Le Soir, Süddeutsche Zeitung, The Guardian, The Washington Post e The Wire)

Belarusian Association of Journalists (BAJ) (Belarus)

A Associação de Jornalistas da Belarus (BAJ) foi fundada em 1995 para apoiar o jornalismo independente. Desde as disputadas eleições de agosto de 2020, a BAJ teve um papel fundamental no registro dos ataques e prisões sem precedentes de jornalistas no país. Prisões, buscas arbitrárias, violência, censura. Apesar do assédio das autoridades, a BAJ registra rigorosamente a perseguição a jornalistas e veículos independentes, o que vem se intensificando há um ano. O trabalho da BAJ tem servido para alertar os cidadãos, as organizações internacionais e outros países sobre a gravidade da situação da liberdade de imprensa na Belarus.

Bellingcat (Países Baixos)


O Bellingcat é um coletivo independente de pesquisadores, investigadores e jornalistas cidadãos que trabalham com uma variedade de tópicos. Graças a uma abordagem inovadora, que consiste no uso de dados de código aberto disponíveis ao público, análise de redes sociais e pesquisas com jornalistas-cidadãos, realizaram um trabalho de investigação aprofundado sobre a violência cometida contra jornalistas durante os protestos  realizados no verão passado no país, após a morte de George Floyd. Seus artigos destacam fatos particularmente significativos e incluem apresentações visuais que mostram como a polícia visou deliberadamente os jornalistas durante essas manifestações. No ano passado, auxiliado por uma equipe de voluntários, o Bellingcat trabalhou com uma organização parceira para mapear centenas de outras ocorrências de violência policial contra manifestantes, transeuntes e jornalistas durante os protestos de maio e junho de 2020.

The Intercept Brasil (TIB) (Brasil)

A investigação do The Intercept Brasil (TIB) sobre mensagens trocadas entre promotores a respeito da Operação Lava Jato - um escândalo de corrupção envolvendo altos funcionários do governo - revelou um desrespeito flagrante pela lei brasileira ao provar a parcialidade do juiz e seu envolvimento na elaboração da acusação. A equipe de jornalistas do TIB foi ameaçada, assediada e forçada a responder a inquéritos judiciais. Glenn Greenwald, então diretor do TIB, recebeu ameaças de morte. Mas o site de notícias continuou suas publicações, confirmando os abusos cometidos por magistrados durante a Operação Lava Jato. Em abril de 2021, o Supremo Tribunal Federal anulou as condenações do ex-presidente Lula, determinando que o juiz Sergio Moro havia sido parcial em seu julgamento. As mensagens tornadas públicas pelo TIB revelaram as ilegalidades que maculam as condenações de vários réus. 

Os indicados ao Prêmio de Independência são:

Stand News (Hong Kong)

Fundado em Hong Kong em dezembro de 2014, o Stand News é um site de notícias independente e sem fins lucrativos em cantonês. Com o objetivo de ser um espaço onde os jornalistas são “independentes de empresas, acionistas, autoridades e partidos políticos”, a mídia se empenha em defender os valores fundamentais de Hong Kong, “a democracia, os direitos humanos, a liberdade, o Estado de direito e a justiça”. Após o fechamento forçado do diário Apple Daily em junho de 2021, seis dos diretores do Stand News foram forçados a renunciar, por medo de serem eles também processados, e o veículo teve que remover todos os artigos de opinião e colunas de seu site para proteger seus autores. Hoje, o Stand News continua a cobrir eventos políticos e sociais cruciais no território, com relatórios detalhados sobre todos os julgamentos relacionados à Lei de Segurança Nacional e às novas políticas governamentais.

Majdoleen Hassona (Palestina) 


Antes de entrar para o canal turco TRT e se estabelecer em Istambul, esta jornalista palestina foi regularmente processada e assediada tanto pelas autoridades israelenses quanto pelas palestinas, por suas publicações críticas. Em agosto de 2019, quando voltou à Cisjordânia para comemorar o Eid com seu noivo (também jornalista da TRT e radicado na Turquia), foi detida em um posto de controle israelense e ficou sabendo que era alvo de uma proibição de deixar o território, emitida pelos serviços de inteligência israelenses “por razões de segurança”. Sem liberdade de movimento, a jornalista está presa no local desde então. Decidiu continuar o seu trabalho e cobriu, em particular, em junho de 2021, as manifestações contra o governo que se seguiram à morte do oposicionista Nizar Banat.  

Moussa Aksar (Niger)

No Níger, é impossível viver do jornalismo se você fizer investigações. As pressões são tão grandes que os anunciantes de veículos são mínimos. Para garantir a sobrevivência e a independência do jornal L'Événement, que fundou em 2002, Moussa Aksar também administra uma fazenda. A edição em papel foi interrompida há três anos, mas o site do jornal está resistindo e continua informando e investigando, apesar das ameaças. Só nos últimos dois anos, Moussa Aksar, que também preside o Centro Norbert Zongo para o Jornalismo Investigativo (CENOZO), compareceu oito vezes à Justiça. Em junho passado, depois de participar de uma iniciativa internacional de jornalismo investigativo que revelou desvios massivos de verbas públicas para a compra de armas, ele foi condenado por danos e teve que pagar uma multa de 1.830 euros.

Andras Arato (Hungria)

Ele dirige a rádio independente Klubradio, conhecida por sua crítica livre e bem-humorada ao poder. Após a decisão do Hungarian Media Council (MMHH) – considerada discriminatória pela Comissão Europeia, mas confirmada pelo Supremo Tribunal do país – de suspender a licença de operação da rádio por razões administrativas triviais, a Klubradio tornou-se mais uma vítima da política de censura do governo húngaro. Hoje, a Klubradio só transmite pela internet e sobrevive graças a doações de seus ouvintes. Como Diretor Executivo, Andras Arato continua a liderar a batalha jurídica e financeira por sua estação de rádio, que continua sendo uma das últimas importantes fontes de notícias independentes na Hungria.