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16 Novembro 2020 - Atualizado a 17 Novembro 2020

Prêmio RSF 2020 para a Liberdade de Imprensa: divulgada a lista de indicados

Jornalistas e veículos de comunicação de 12 países foram nomeados em 3 categorias: coragem, impacto e independência. A premiação será concedida em Taipei, no dia 8 de dezembro.

Doze nomeados, de doze países diferentes, concorrem nas três categorias do Prêmio RSF para a Liberdade de Imprensa 2020. Sete jornalistas ­– dentre os quais quatro mulheres ­–,  e cinco veículos de comunicação ou organizações de jornalistas foram selecionados para concorrer ao Prêmio Coragem, ao Prêmio Impacto e ao Prêmio Independência. Entre os candidatos, jornalistas e veículos de comunicação da Rússia, Brasil, Filipinas, Índia e França.


“O Prêmio RSF para a Liberdade de Imprensa tem como objetivo recompensar jornalistas que, por meio de sua coragem, sua independência ou o impacto de suas reportagens e investigações, incorporam especialmente os ideais de jornalismo que nós defendemos, declarou o secretário-geral da organização, Christophe Deloire. O prêmio não só homenageia, mas também constitui um apoio claro e explícito a jornalistas que,  com frequência demais, são presos, processados ou ameaçados precisamente por terem personificado esses valores." 



Depois de Londres em 2018 e Berlim em 2019, a capital de Taiwan, Taipei, vai sediar a premiação deste ano. A cerimônia vai acontecer no dia 8 de dezembro na Biblioteca Nacional de Taipei e será transmitida ao vivo no Facebook (em chinês) e no YouTube (em inglês).

 

"Por provar que podemos controlar a pandemia de Covid-19 sem sacrificar as liberdades fundamentais, Taiwan é o lugar ideal para sediar a cerimônia de nosso prêmio para a liberdade de imprensa, afirma o diretor do escritório da RSF para o Leste Asiático, Cedric Alviani. Na Classificação Mundial da Liberdade de Imprensa da RSF, Taiwan figura consistentemente no pelotão de frente dos países asiáticos e representa o melhor contra-modelo ao sistema autoritário chinês.

 

O júri desta 28ª edição, encabeçado pelo presidente da RSF, Pierre Haski, é composto por eminentes jornalistas e defensores da liberdade de expressão de todo o mundo:  Rana Ayyub, jornalista indiana e colunista de opinião no Washington Post; Raphaëlle Bacqué, repórter francesa do jornal Le Monde; Mazen Darwish, advogado sírio e presidente do Centro Sírio para a Mídia e a Liberdade de Expressão; Zaina Erhaim, jornalista síria, coordenadora na Síria do Institute for War and Peace Reporting; Erick Kabendera, jornalista investigativo tanzaniano; Hamid Mir, jornalista, colunista e escritor paquistanês; Frederik Obermaier, jornalista investigativo do jornal de Munique Süddeutsche Zeitung; Mikhail Zygar, jornalista, editor-chefe e fundador do único canal de televisão independente da Rússia, Dozhd


Indicados ao prêmio de coragem:

Elena Milachina (Rússia)


Jornalista investigativa do tri-semanário Novaïa Gazeta, Elena Milachina ocupa o lugar deixado vago com o assassinato, em 2006, de sua colega Anna Politkovskaïa, especialista em Chechênia. Regularmente alvo de ataques (o último, ocorrido em um hotel em Grozny, data de fevereiro), ameaças de morte e censura (um de seus artigos sobre a gestão repressiva da pandemia de Covid-19 pelas autoridades chechenas foi retirado do site do jornal em abril), ela continua a publicar artigos sem concessões sobre as questões mais sensíveis dessa república autônoma, governada com mão de ferro por Ramzan Kadyrov.

Margarita "Ging-Ging" Valle (Filipinas)

Detida, presa e mantida incomunicável por vários dias em junho de 2019 numa tentativa de intimidação, a repórter do jornal e site Davao Today nunca desistiu de denunciar violações dos direitos humanos em sua região, o sudeste das Filipinas, que está sob lei marcial. Especialista em temas comumente ausentes dos principais meios de comunicação nacionais (direitos das populações indígenas, direitos das mulheres no campo, meio ambiente, etc.), a jornalista experimentou o “sistema Duterte” desde muito cedo na carreira, já que ele foi prefeito de Davao por muito tempo antes de se candidatar à presidência. 

Fahad Shah (Caxemira, Índia) 


Por conta de seus artigos, o editor-chefe do The Kashmir Walla, principal veículo investigativo da Caxemira, é regularmente convocado pela polícia para interrogatórios - tanto com o objetivo de intimidá-lo e ameaçá-lo, mas também para obrigá-lo a revelar suas fontes, ao que ele resiste terminantemente. Fahad Shah também foi alvo de ataques físicos. O veículo pelo qual Shah é responsável desempenha papel fundamental na defesa da liberdade de imprensa, pois graças a iniciativas inovadoras, continua a informar oito milhões de caxemires totalmente desligados do mundo após o cancelamento da autonomia de seu território em agosto de 2019.

Mohammad Masaed (Irã)

Jornalista econômico independente, Masaed foi reconhecido e premiado (Prêmio Amin al-Zarb e Prêmio Deutsche Welle para a Liberdade de Expressão em 2020) por suas excepcionais investigações denunciando casos de corrupção econômica no Irã. Em fevereiro de 2020, foi intimado e interrogado por agentes da inteligência da Guarda Revolucionária por postar mensagens sobre aCovid-19 em redes sociais. Embora tenha sido liberado, o jornalista teve seu telefone e computador confiscados e suas contas no Twitter e no Telegram, encerradas. Preso várias vezes por uma simples publicação no Twitter em 2019, figurou nesse mesmo ano na lista da Aliança Internacional para a Liberdade de Imprensa dos jornalistas mais perseguidos.

Indicados ao prêmio de impacto: 

La Voix de Djibouti (LVD) (Djibouti) 

Banido no Djibouti e hoje transmitindo do exílio na França, o LVD trabalha com uma rede de jornalistas e colaboradores voluntários que fornecem informações operando na clandestinidade. Ele é a única ilha de informação livre produzida por djibutianos em um país onde apenas a mídia estatal, que veicula a propaganda do regime, é autorizada. Apesar de seus recursos limitados, o veículo de comunicação lançou uma web TV há alguns meses e continuou a crescer em impacto e notoriedade, sobretudo no “caso Fouad” que, recentemente, abalou o governo. Regularmente bloqueado pelas autoridades, o site do LVD é disponibilizado pela RSF como parte da operação Collateral Freedom.

 

Disclose (França) 

Essa jovem mídia de jornalismo investigativo colaborativo, financiada exclusivamente por doações de seus leitores e filantropos, realiza investigações sobre temas de interesse público (meio ambiente, questões sociais, agro-alimentação, etc.). O Disclose tem como meta estimular o debate público e oferecer aos cidadãos as ferramentas para se apropriarem do direito à informação e o poder de agir após investigações. Em 2020, suas revelações sobre crimes de pedofilia no mundo do esporte levaram à renúncia de um presidente de federação esportiva. No ano anterior, a publicação de uma investigação chocante sobre o uso de armas francesas no Iêmen levou o governo a ter que se explicar publicamente. Como resultado, dois jornalistas co-fundadores do Disclose foram intimados pela Direção-Geral de Segurança Interna (DGSI), após a abertura de inquérito preliminar por “comprometimento do sigilo de defesa nacional”. A investigação acabou sendo arquivada.


 

Radio Merman (Afeganistão)

Primeira emissora de rádio em Kandahar, esta estação tem por objetivo servir à causa das mulheres (“merman” em pashto) no Afeganistão. Uma equipe de 15 mulheres jornalistas, produtoras e técnicas veicula, diariamente, programas destinados a mudar a opinião pública sobre a questão do gênero, promover a eleição de mulheres para órgãos públicos e organizar, em colaboração com outras instituições, programas de combate à violência contra as mulheres. A rádio também oferece treinamento em jornalismo para mulheres. A estação continua funcionando, apesar das ameaças dos talibãs, dos alertas da agência de inteligência e dos ataques dos quais suas jornalistas são alvo. 

Cecilia Olliveira (Brasil)

Jornalista investigativa especialista em questões de segurança pública, drogas e administração pública para a edição brasileira do The Intercept, Cecília Olliveira desempenhou papel decisivo ao revelar o interesse econômico de organizações internacionais na guerra de facções que assola o Rio de Janeiro, ao descobrir os nomes dos países de origem impressos em cartuchos coletados nos bairros afetados por conflitos. Alguns eram provenientes dos Estados Unidos, da China, da Rússia e da Bélgica, enquanto outros eram marcados como OTAN. A jornalista também está na origem da plataforma Fogo Cruzado, que lista atos de violência armada no Rio de Janeiro e em Recife e abriga um banco de dados aberto que contribui para o desenvolvimento de políticas de segurança pública. Cecília é uma das vozes que importam na promoção do jornalismo plural e independente no país.

Indicados ao prêmio de independência:

Lina Attalah (Egito) 

Co-fundadora e editora-chefe do Mada Masr, um dos últimos sites de notícias independentes no Egito, Lina Attalah se firmou como uma jornalista que ousa abordar assuntos delicados e lutar contra a autocensura. Em um país onde a maioria dos principais grupos de imprensa foi adquirida por pessoas próximas ao presidente, ela sabe que a independência tem um preço. Foi presa em várias ocasiões após investigações ou entrevistas, e as instalações de sua redação foram revistadas em 2019, após a publicação de uma investigação sobre o filho do presidente Abdel Fattah Al-Sisi. Há três anos, o acesso ao site do Mada Masr está bloqueado pelas autoridades e o site permanece inacessível do Egito. Lina Attalah está na lista das 100 pessoas mais influentes do mundo estabelecida pela Time Magazine em 2020.

Péter Uj (Hungria)

Editor-chefe do site de notícias independente 444.hu, Péter Uj é uma figura emblemática do jornalismo independente húngaro e seu defensor mais fervoroso. Em 1999, participou da criação do principal portal independente do país, Index.hu, cujo corpo editorial dirigiu por 11 anos, até que o governo interferisse na criação do conteúdo e na composição da equipe. Inovador, determinado e carismático, lançou em 2013 o site 444.hu, hoje uma das únicas ilhas onde a liberdade de imprensa é exercida na Hungria, apesar das tentativas do primeiro-ministro Viktor Urban de amordaçar os meios de comunicação independentes do país e após o desaparecimento virtual do Index.hu em julho deste ano. 

CamboJA, Cambodian Journalist Alliance (Camboja) 

A criação da Aliança Cambojana de Jornalistas, em dezembro de 2019, nasceu de uma constatação avassaladora: o clã do primeiro ministro Hun Sen, no poder há 30 anos, conseguiu, antes das eleições de 2018 e com grande violência, aniquilar toda a imprensa independente e controlar o contexto midiático do país. O surgimento do CamboJA foi, nesse contexto, como uma bolha de ar que permite que os repórteres do país respirem. A aliança desenvolveu uma plataforma de informações independente que oferece aos jornalistas cambojanos um espaço de expressão, mas também de denúncia de violações à imprensa livre, assistência e formação em ética e investigação jornalística. Último bastião da independência dos meios de comunicação no país, possui mais de uma centena de membros.

La Prensa (Nicarágua) 

Fundada em 1926 com o lema “Estar a serviço da verdade e da justiça”, o mais importante diário do país, que não poupa críticas ao regime de Ortega, está na mira do governo. Há três anos, todos os meios têm sido usados para tentar sufocar economicamente o La Prensa. Durante 18 meses, o jornal foi vítima de uma escassez organizada de papel e matérias-primas, que o obrigou a reduzir drasticamente a sua paginação. Mais recentemente, La Prensa tem sido alvo de processos judiciais abusivos com o objetivo de fazê-lo pagar multas exorbitantes. Em um editorial publicado em 27 de janeiro de 2020, intitulado “A ditadura estrangula La Prensa”, a direção do jornal explicou que, devido a essa censura administrativa, os dias do jornal estavam contados.