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24 Outubro 2016 - Atualizado a 3 Novembro 2016

Prêmio RSF 2016: 22 jornalistas e meios de comunicação indicados por seu compromisso com a liberdade de imprensa

A Repórteres sem Fronteiras (RSF) revela, nesta segunda-feira, 24 de outubro, o nome dos 22 indicados ao Prêmio Repórteres sem Fronteiras – TV5 Monde pela Liberdade de Imprensa de 2016. A cerimônia desta 25ª edição será realizada em Estraburgo, na França, no próximo dia 8 de novembro. A organização recompensará três premiados nas categorias jornalista, meio de comunicação e jornalista- cidadão/blogueiro.

Em 2016, foram vários os jornalistas e blogueiros que demonstraram uma grande coragem no exercício diário de sua profissão, muitas vezes colocando suas vidas em risco. Oriundos de 19 países, muitos dos indicados deste ano foram processados ou mesmo presos por terem dito não à auto-censura e defendido sua missão de informar. Outros ainda, embora em liberdade, têm de enfrentar as ameaças ou a violência física daqueles que ousam criticar.


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“Em 2016, os regimes autoritários endureceram sua repressão sobre os jornalistas e os blogueiros, declara Christophe Deloire, Secretário-geral de Repórteres sem Fronteiras. Por esse motivo, não é nenhuma surpresa constatar que cerca de metade dos indicados exercem sua profissão num dos últimos 20 países do Ranking Mundial da Liberdade de Imprensa, numa lista de 180 países. A RSF saúda a coragem e a determinação destes homens e mulheres que travam um combate comum pela liberdade de informação."


Infelizmente, uma parte significativa dos indicados enfrenta atualmente um processo judicial, enquanto outros se encontram na cadeia por terem simplesmente pretendido informar seus concidadãos sobre temas de interesse público, declara Lucie Morillon, diretora de Programas da organização. Tais são os casos do jornalista egípcio Ismaïl Alexandrani, do azeri Seymour Khazi ou dos chineses Lu Yuyu e Li Tingyu que, à semelhança de tantos outros jornalistas-cidadãos e blogueiros em todo o mundo, suprem as funções da imprensa tradicional nos casos em que esta se encontra asfixiada pelo poder. Apelamos à sua liberação sem condições e à retirada das acusações que pesam sobre eles.


Nove jornalistas que informam arriscando suas vidas


De apenas 29 anos, Hadi Abdullah, ex-enfermeiro de Homs reconvertido ao jornalismo freelance, já correu perigo de vida em várias ocasiões no exercício de suas funções, perdeu seu parceiro cinegrafista e tornou-se um alvo das forças leais ao regime, assim como de outros grupos armados. A jornalista afegã Najiba Ayubi, também ela ameaçada de morte, é diretora do Killid Media Group, onde prossegue seu combate por uma imprensa livre. A jornalista de investigação colombiana Jineth Bedoya, que continua – entre outros combates – defendendo as mulheres vítimas de violência, e a editora-chefe do The Maldives Independent, Zaheena Rasheed, encarnam a tenacidade e a luta contra a impunidade dos crimes contra os jornalistas. A jornalista maldiva cobre temas extremamente sensíveis e não hesita em criticar abertamente as autoridades, em especial após o desaparecimento, em 2014, de seu colega Ahmed Rilwan. Temendo ser presa, abandonou o arquipélago no último mês de setembro.


Em liberdade, mas perseguido pela justiça, tal é a situação do prestigiado jornalista Alfred Taban, fundador do primeiro jornal do Sudão do Sul, o Juba Monitor, assim como de Mahfuz Anam, editor-chefe do Daily Star do Bangladesh e do jornalista de investigação francês Édouard Perrin, que contribuiu com a revelação do escândalo LuxLeaks, no Luxemburgo. Ismaïl Alexandrani, jornalista de investigação egípcio e Seymour Khazi, autor de renome do último diário de oposição do Azerbaijão, Azadlig, não tiveram a mesma sorte. Ambos estão presos por acusações completamente infundadas.


Sete veículos pioneiros da informação livre e independente


Sete meios de comunicação se evidenciaram no último ano por seu trabalho exemplar, apesar das pressões incessantes que muitos deles tiveram de suportar. Azamn, o único jornal independente do sultanato de Omã, pagou um custo elevado por sua independência. Em 2016, o jornal foi suspenso pela justiça e três de suas principais figuras foram condenadas a prisão. O mesmo tipo de riscos pesam sobre os correspondentes locais do portal da agência de imprensa independente da Ásia Central Ferghana, Fergananews.com. No Uzbequistão e no Turcomenistão, estes correspondentes praticam seu trabalho de informar de forma clandestina. Enquanto isso, os jornalistas-cidadãos do site de informação chinês sobre os direitos humanos 64Tianwang continuam sofrendo uma repressão sistemática por parte das autoridades chinesas. Apesar de tudo, sua determinação não vacila. Como explica Huang Qi, laureado do prêmio RSF Liberdade Digital em 2004, “em 18 anos de atividade, nenhum de nós aceitou assinar as confissões redigidas pelas autoridades” e difundidas nos canais CCTV e Xinhua para desacreditar as vozes dissidentes.


Na Argélia e na Líbia, dois veículos de comunicação com apenas três anos de vida se sobressaíram por sua independência e seu combate por uma imprensa livre. Radio M, a primeira web-rádio independente criada em Argel, colabora com opluralismo de opiniões num país que tem por costume amordaçar a mídia. Por outro lado, o site de informação Bawabat Al Wassat já se tornou incontornável numa Líbia caótica e onde os problemas de segurança são extremamente preocupantes. Em fevereiro de 2015, o site foi censurado durante nove meses por ter coberto as negociações em torno da criação de um governo de unidade nacional. Fundado por Adam Michnik, o diário polaco pró-europeu Gazeta Wyborcza tornou-se um símbolo da luta contra as derivas do partido no poder Direito e Justiça (PiS), que leva a cabo uma autêntica cruzada contra a mídia. Desde sua fundação em 2011, a agência brasileira Pública realizou grandes reportagens de investigação, várias delas premiadas, sobre direitos humanos e temáticas ambientais.


Quando os jornalistas-cidadãos e blogueiros tomam a palavra


Nos casos em que a imprensa tradicional não consegue desempenhar seu papel, os jornalistas- cidadãos e os blogueiros independentes ocupam seu lugar na difusão da informação livre, desencadeando por vezes a fúria das autoridades. Tal foi o caso de Lu Yuyu e de Li Tingyu. No dia 15 de junho de 2016, estes dois jornalistas-cidadãos desapareceram sem deixar rastro. Hoje, sabe-se que estão presos por terem feito a cobertura dos movimentos sociais e as manifestações operárias na China, um dos temas tabu para o Partido Comunista no poder. No Bahrein, Ali Al- Mearaj foi detido em junho de 2016 por ter criticado o regime e enfrenta acusações de apoio ao terrorismo. A jornalista-cidadã iraniano-britânica Roya Saberi Negad está presa desde outubro de 2013 na célebre prisão de Evin, em Teerã, onde cumpre uma pena de cinco anos de prisão por suas críticas ao regime iraniano no Facebook.


Tania García Quintero e seu filho Ivan encarnam a resistência pela palavra escrita e as dificuldades da liberdade de expressão em Cuba. Enquanto Tania buscou refúgio político na Suíça, Ivan optou por ficar em Cuba, onde continua publicando artigos sobre a censura e o combate dos jornalistas independentes. Leonardo Sakamoto é um antigo repórter de guerra, autor de um blog sobre os direitos humanos no Brasil e a luta contra o trabalho escravo contemporâneo. Habituado às ameaças, Sakamoto é o alvo constante de campanhas de descrédito e ataques na Internet.


Criado em apenas um dia no início da crise política em maio de 2015, SOS Média Burundi é composto por uma página Facebook e um site de informação. Seus colaboradores permanecem anônimos. SOS Média Burundi constitui atualmente a principal fonte de informação sobre a crise no país.


Os Prêmios Repórteres sem Fronteiras – TV5 Monde contribui anualmente, desde 1992, para a expansão da liberdade de informação ao recompensar jornalistas e meios de comunicação que se tenham destacado na defesa e promoção da liberdade de informação. Para além de seu valor honorífico, os prêmios entregues aos vencedores incluem uma soma de 2500 euros.