Notícia

25 Agosto 2021

Novas regras (não oficiais) impostas aos jornalistas no Afeganistão

Microphones de divers médias afghans. © Bryan Denton/The New York Times/Redux
Publicamente, o Talibã se comprometeu a proteger os jornalistas e a respeitar a liberdade de imprensa. Mas a realidade é bem diferente. O novo governo em Cabul já impõe restrições, mesmo que não oficiais, muito severas às redações.

A lista de obrigações dos jornalistas aumenta a cada dia. Menos de uma semana após se comprometerem a respeitar a liberdade de imprensa “porque a informação será útil à sociedade”, segundo a expressão usada por seu porta-voz, os talibãs estão ampliando as ameaças, as pressões e por vezes a violência contra jornalistas no país. "As novas autoridades afegãs não publicaram uma regra oficial, mas a mídia e os repórteres estão sujeitos à arbitrariedade'', declarou o secretário-geral da Repórteres sem Fronteiras (RSF), Christophe Deloire. “Será que já estão caindo as máscaras dos talibãs? Pedimos que garantam as condições para o exercício de um jornalismo digno desse nome”.

 

De fato, as ameaças se tornaram diárias para os canais privados afegãos que ainda transmitem na capital. "Em uma semana, os talibãs espancaram cinco jornalistas e cinegrafistas de nosso canal”, explicou um produtor de um canal de televisão nacional privado*. “Eles os chamavam de 'takfiri' (que equivale, neste contexto, a tratá-los de descrentes). Controlam tudo o que transmitimos. Nas ruas, os comandantes talibãs sistematicamente obtêm os números de nossos repórteres. E dizem a eles: quando for publicar sua matéria, diga isto ou aquilo. Se dizem outra coisa, são ameaçados."

 

Muitos meios de comunicação foram forçados a suspender parte de sua programação porque os novos mestres de Cabul ordenaram que respeitassem a Sharia, a lei islâmica. “As séries e os programas de sociedade foram interrompidos. Só transmitimos boletins informativos breves e documentários de arquivo", explica um funcionário de um canal de televisão privado, que também, por precaução, começou a deixar crescer a barba e a se vestir apenas com suas roupas tradicionais.

 

Um diretor de uma estação de rádio privada ao norte de Cabul confirma o controle progressivo, mas rápido, dos talibãs sobre as informações: “Uma semana atrás, nos disseram 'vocês podem trabalhar livremente, desde que sigam as regras islâmicas (sem música e sem mulheres)’, mas começaram a nos 'orientar' sobre quais informações poderíamos ou não divulgar e sobre o que eles consideram que seja informação correta", explica o diretor, que acabou fechando seu veículo de comunicação e fugindo para se proteger.

 

Por falta de autorização assinada pelo Emirado Islâmico do Afeganistão (EIA), dois jornalistas do canal de televisão privada Shamshad foram impedidos de fazer uma reportagem diante da embaixada da França. Mas quando perguntaram a quem e onde deveriam pedir uma autorização, a única resposta do guarda talibã foi: "não sei".

 

Nos últimos dias, o Talibã ordenou que os meios de comunicação afegãos mais influentes transmitissem clipes de áudio e vídeos de propaganda talibã. Diante da resistência dos canais, "o Talibã alega que é apenas publicidade e que está disposto a pagar para que seja transmitida, e insiste em invocar nosso dever nacional ou islâmico".

 

Cerca de 100 meios de comunicação privados locais interromperam suas atividades

 

À medida que os incidentes em campo aumentam - no espaço de uma semana, pelo menos 10 jornalistas foram ameaçados ou agredidos enquanto realizavam seu trabalho nas ruas de Cabul e Jalalabad -, no sábado, 21 de agosto, o porta voz do Talibã anunciou em sua conta do Twitter a criação, em breve, de um comitê tripartite para "tranquilizar a mídia", que será composto por representantes da Comissão Cultural e de associações de jornalistas, assim como por um membro do comando da polícia de Cabul. A missão oficial do comitê será "lidar com questões de mídia em Cabul." O que realmente será isso?

 

Longe da capital, nas diferentes províncias do país, as pressões são ainda mais fortes. Cerca de 100 meios de comunicação privados locais interromperam suas atividades desde a chegada do Talibã ao poder. Na quarta cidade do país, Mazâr-e Charîf, os jornalistas foram obrigados a parar de trabalhar. Em outros lugares, a situação é muito tensa. “Aqui no sul, tenho que trabalhar todos os dias sob a ameaça dos talibãs, que comentam tudo o que eu faço: mas por que você produziu esse tema? E por que não pediu a nossa opinião? Eles querem comentar sobre todos os assuntos", explica, apavorado, um correspondente de uma estação de rádio nacional.

 

Na província de Herat, o diretor de uma rádio de notícias amplamente ouvida antes da chegada do Talibã ao poder fez a mesma constatação: em 17 de agosto, o novo governador reuniu os diretores de meios de comunicação para assegurá-los de que não era seu inimigo e que definiriam juntos as novas regras de trabalho. Porém, diante de jornalistas silenciosos, o governador promulgou os novos princípios de trabalho com uma frase: "A Sharia define tudo: 'Ordene o bem e proíba o mal' (esta injunção é parte das práticas fundamentais do Islã), só precisamos aplicá-la!” Segundo o diretor, depois disso, a maioria dos colegas deixou a cidade e aqueles que ficaram precisam provar constantemente que tudo o que é transmitido ordena o bem e proíbe o mal.

 

Até agora, os correspondentes estrangeiros que permaneceram na capital não estão sujeitos a esses ditames e conseguem trabalhar quase normalmente, mas por quanto tempo? No sábado, 21 de agosto, o Ministério da Juventude e da Informação do Emirado Islâmico do Afeganistão (EIA) decretou que a mídia internacional, “antes de ir a campo e gravar entrevistas com os combatentes do EIA e a população local, deve se coordenar com o EIA, sob pena de prisão”.

 

“Não existem regras claras no momento e não temos ideia do que vai acontecer no futuro”, resume um jornalista independente suíço em Cabul. "A lua de mel ainda não acabou, explica outro correspondente estrangeiro. Tiramos proveito do fato que o Talibã continua a buscar uma legitimidade e da chegada, nos últimos dias, de grandes redes de televisão internacionais; isso nos protege. Mas as verdadeiras dificuldades começarão quando estivermos a sós novamente".

 

*Por questões de segurança, levando em consideração o clima de medo que atualmente reina no país e o pedido de todos os jornalistas entrevistados - afegãos e estrangeiros -, seu anonimato foi preservado. Muitos jornalistas contatados, explicando que não tinham meios para deixar o Afeganistão, preferiram não declarar nada.