Notícia

5 Novembro 2012 - Atualizado a 16 Outubro 2016

Expulsão do delegado da RTP anulada


Repórteres sem Fronteiras tomou conhecimento com satisfação da decisão das autoridades de Bissau de voltarem atrás com a expulsão do chefe da delegação da Rádio Televisão Portuguesa (RTP), Fernando Gomes, e de terem chegado a um acordo com a RTP de forma a garantir a segurança do jornalista perante as numerosas ameaças proferidas contra este. A organização espera que, para além do caso de Fernando Gomes, esta medida assinalará o fim das pressões exercidas sobre a imprensa na Guiné-Bissau.

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02.11.2012 - O delegado da RTP expulso de Bissau, um ambiente irrespirável para a imprensa

Repórteres sem Fronteiras deplora a expulsão pelas autoridades de Bissau do delegado da Rádio Televisão Portuguesa (RTP), Fernando Gomes, e exprime a sua preocupação pelo ambiente extremamente sensível no qual os jornalistas do país exercem a sua profissão. O jornalista português deverá regressar a Lisboa no dia 2 de Novembro de 2012, na sequência das ameaças de morte directas e explícitas proferidas contra si por um alto responsável militar.

A expulsão do delegado da RTP sucede após uma grave crispação das relações entre a Guiné-Bissau e Portugal, com as autoridades de transição a acusarem a antiga potência colonial de estarem por trás do ataque a um quartel de Bissau, no passado dia 21 de Outubro, com o objectivo de voltarem a colocar no poder o ex-Primeiro-Ministro Carlos Gomes Júnior.

Fernando Gomes é acusado de ter realizado “reportagens hostis” contra o governo de transição, no poder após o golpe de Estado militar do passado dia 12 de Abril, que destituiu o regime de Carlos Gomes Júnior, entre as duas voltas da eleição presidencial.

Contactado por Repórteres sem Fronteiras, Fernando Gomes afirmou não ter sido notificado oficialmente da sua expulsão mas ter tomado conhecimento dela através do conselho de administração da RTP, que recebera uma carta do Ministro da Comunicação e porta-voz do Governo, Fernando Vaz, a 29 de Outubro de 2012.

Um dos seus colegas, citado pela Agência France-Press (AFP), declarou: “Fernando Gomes não faz mais do que o seu trabalho. Já foi várias vezes importunado e insultado por soldados no decorrer de reportagens”. A AFP relata que Fernando Gomes fora intimidado por soldados, a 27 de Outubro, durante a detenção, na localidade de Bolama, numa das ilhas das Bijagós, do capitão Pensau N’Tchama, suposto cabecilha do ataque de 21 de Outubro na capital.

“Trabalhamos todos com medo”, reconheceu um jornalista de Bissau a Repórteres sem Fronteiras. A 30 de Outubro, numa conferência de imprensa na sede do Estado-maior, o chefe do Estado-maior proferiu a seguinte ameaça: “O jornalista que colocar questões sobre o assassínio do antigo presidente Nino Vieira não sairá vivo deste quartel. Eu mato-o. Estamos numa situação de guerra.”

Preocupada por estas ameaças directas e o ambiente de terror por elas provocado, Repórteres sem Fronteiras solicita às autoridades de Bissau que ponham um ponto final imediato a esta política de intimidação contra os jornalistas. “Instilar medo de forma a beneficiar de uma cobertura mediática dócil e complacente não é digno de um governo que prepara eleições, previstas para Abril de 2013. O pluralismo e a independência dos meios de comunicação devem ser respeitados, assim como a segurança dos jornalistas”, concluiu a organização.

Ler também dois relatórios de Repórteres Sem Fronteiras :

- “Crimen organizado, la información entre sus manos”

- Cocaïne et coup d’Etat, fantômes d’une nation bâillonnée (FR) / Cocaine and coups haunt gagged nation (EN)

Foto : Fernando Gomes ameaçado pelo ministro da Defesa, Celestino de Carvalho, no 21 de outubro, em Bissau.