Notícia

13 Abril 2020

EUA: RSF pede a Trump que interrompa os ataques a jornalistas e convida os meios de comunicação a refletir sobre a legitimidade da cobertura das coletivas de imprensa sobre o Covid-19

MANDEL NGAN / AFP
A Repórteres sem Fronteiras (RSF) faz um apelo ao presidente Donald Trump para que interrompa seus hediondos ataques verbais a jornalistas que cobrem a gestão da pandemia de Covid-19 pela Casa Branca. A RSF também convida os meios de comunicação a refletir sobre a legitimidade da transmissão ao vivo das coletivas de imprensa sobre o Covid-19.

Mais de um ano após a exclusão do encontro diário com a imprensa, a Casa Branca decidiu, desde que a pandemia atingiu o país, realizar uma coletiva de imprensa sobre o Covid-19 todas as noites. O presidente Trump, no entanto, explorou essas coletivas para fins políticos e, desde que sua transmissão diária começou em 16 de março, atacou pelo menos oito jornalistas, incluindo os da NBC, ABC, Fox, CNN, PBS e CBS. Durante essas sessões, que às vezes duram mais de duas horas, o presidente Trump passa muito tempo insultando, contradizendo suas próprias palavras e as de seu governo sobre a pandemia, ou mesmo transmitindo informações médicas infundadas. Vários canais de televisão importantes, incluindo CNN e MSNBC, optaram por não transmitir sistematicamente as coletivas de imprensa ao vivo ou na íntegra, devido à sua preocupação, legítima, em transmitir informações imprecisas sem intenção.


"No momento em que os americanos precisam desesperadamente de um fluxo regular de informações coerentes e bem fundamentadas, o presidente Trump transformou a sala de coletivas de imprensa em um circo político onde reinam a desinformação e a autocongratulação, declarou Dokhi Fassihian, diretora da Repórteres sem Fronteiras nos Estados Unidos. Ainda mais desprezível é o desprezo violento com que o presidente trata jornalistas que arriscam suas saúdes para informar seus compatriotas sobre a maneira como seu governo está lidando com essa emergência de saúde pública. Cada um desses incidentes constitui uma tentativa vergonhosa de tornar a imprensa um bode expiatório, recorrendo a uma retórica de ódio destinada a desviar a atenção e evitar as principais interrogações sobre a resposta do governo ao Covid-19."


Como parte do Tracker 19, um projeto liderado pela RSF para avaliar o impacto do Covid-19 no jornalismo, documentando a censura de Estado, o foco nos jornalistas e a desinformação relacionada à pandemia, a RSF Estados Unidos listou os principais incidentes nos quais o presidente Trump ataca jornalistas enquanto estes faziam seu trabalho de relatar a maneira como o governo está lidando com a pandemia.

 A lista abaixo relata os principais incidentes do mês de março:

  • Em 17 de março, um funcionário da Casa Branca, fez um jogo de palavras associando o vírus a uma "doença chinesa", dirigindo-se diretamente à repórter da CBS News, Weijia Jiang, de origem asiática.
  • Em 20 de março, depois que o repórter da NBC News, Peter Alexander, perguntou a ele que mensagem enviaria aos americanos preocupados com o coronavírus, o presidente Trump perdeu brutalmente a paciência:"Eu digo que você é um péssimo jornalista. É isso que eu digo."
  • Em 25 de março, a repórter da CBS News, Paula Reid, perguntou ao presidente se o seu objetivo de reabrir o país até a Páscoa era motivado por interesses políticos pessoais, ao que ele respondeu: "Acho que algumas pessoas gostariam que o país ficasse mal financeiramente, porque acham que isso ajudaria em minha derrota nas eleições. E não sei se é esse o caso, mas tenho certeza de que existem pessoas em sua profissão que gostariam que isso acontecesse.  Na minha opinião, não há dúvida a esse respeito."
  • Em 27 de março, o presidente Trump postou um tweet sobre a jornalista do New York Times, Maggie Haberman: “É uma jornalista de terceira categoria que não tem competência nenhuma. Uma ‘jornalista’ de informações falsas." Ele respondia ao tweet de Haberman citando-o a respeito dos governadores estaduais que criticaram a gestão da pandemia pelo governo: "Quero que sejam gratos."
  • Em 29 de março, a jornalista da PBS, Yamiche Alcindor, pediu ao presidente Trump esclarecimentos sobre seu comentário relativo aos pedidos dos governadores por material, que ele havia qualificado como exagerados e supérfluos. Ele respondeu acusando Yamiche Alcindor de ser "ameaçadora" e pedindo-lhe para "ser gentil". Em seguida, o jornalista da CNN, Jeremy Diamond questionou o presidente quanto ao fato de ele negar ter ordenado ao vice-presidente Mike Pence que não chamasse os governadores a quem considerava ingratos com relação à assistência federal prestada durante a crise do coronavírus, apesar de vídeos provarem o contrário. O presidente Trump o chamou de "notícias falsas" e afirmou que ele "mentia". Na mesma noite, o presidente Trump atacou o canal no Twitter: "Os meios de comunicação complacentes são as forças dominantes que tentam me obrigar a fechar o país pelo maior tempo possível, na esperança de que isso seja prejudicial ao meu sucesso eleitoral."
  • Em 30 de março, o presidente atacou o repórter da CNN, Jim Acosta, depois que ele perguntou sobre a realidade de um teste de Covid-19 por pessoa nos Estados Unidos, que Trump qualificou de "inadequado".
  • Em 1o de abril, a repórter da PBS, Yamiche Alcindor, tentou obter esclarecimentos sobre as observações do presidente de que os governadores estavam pedindo suprimentos médicos dos quais na realidade não precisavam. Trump a interrompeu duas vezes, dizendo que era uma pergunta "mal-intencionada e inadequada".
  • Em 3 de abril, a jornalista da CBS News, Weijia Jiang, fez ao presidente uma pergunta sobre o que Jared Kushner (seu genro e consultor) havia dito sobre o estoque federal de suprimentos médicos. Trump respondeu: "Por que você está me perguntando? Isso é o quê, uma armadilha? Uma armadilha? Você usa a palavra ‘nosso’ - você sabe o que ‘nosso’ significa?  Os Estados Unidos da América." O presidente acrescentou que ela havia feito a pergunta "num tom muito desagradável".
  • Em 6 de abril, o presidente atacou dois jornalistas durante a coletiva de imprensa noturna. Quando a jornalista da Fox News, Kristen Fisher, perguntou sobre o atraso no recebimento dos resultados dos testes de Covid-19 pelos hospitais, Trump, visivelmente irritado, respondeu: "Você deveria dizer: ‘Parabéns, ótimo trabalho’, em vez de ser tão desagradável na maneira como faz uma pergunta." Ele também tratou o jornalista da ABC e presidente da Associação de Correspondentes da Casa Branca, Jon Karl, de "jornalista de terceira categoria" que "nunca terá sucesso em sua profissão"


Os Estados Unidos ocupam a 48a posição entre 180 países no Ranking Mundial da Liberdade de Imprensa 2019 da RSF.