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22 Agosto 2019 - Atualizado a 23 Agosto 2019

Em sua resposta à RSF, a chefe do executivo Carrie Lam não consegue tranquilizar quanto à liberdade de imprensa em Hong Kong

PHOTO: ANTHONY WALLACE / AFP
Em uma carta assinada por sua secretária particular, a chefe do executivo Carrie Lam responde à carta aberta da Repórteres sem Fronteiras sem, contudo, dar a devida importância à ameaça que paira sobre a liberdade de imprensa em Hong Kong.

No dia 12 de agosto, a chefe do executivo de Hong Kong, Carrie Lam, respondeu por escrito, por intermédio de sua secretária particular Maggie Wong, à carta aberta enviada a ela pelo secretário geral da Repórteres sem Fronteiras (RSF), Christophe Deloire, no dia 26 de julho. A carta foi publicada em seis veículos de comunicação: South China Morning PostApple Daily NewsLiberty TimesHong Kong Free PressTaipei Times e BuzzOrange. Nela, a RSF apresentava cinco reivindicações para restabelecer o exercício pleno da liberdade de imprensa na região administrativa especial chinesa. 

Na carta de resposta (veja texto integral em anexo), a chefe do executivo alega que o projeto de lei de extradição não representa uma ameaça aos jornalistas e suas fontes. Segundo ela, as forças da ordem respeitam “o direito dos meios de comunicação de cobrir acontecimentos e incidentes públicos” e promete que “investigarão ativamente qualquer ato ilegal ou violento”. Quanto ao estado geral da liberdade de imprensa em Hong Kong, ela destaca os “mecanismos instaurados há muito tempo” para facilitar o trabalho dos jornalistas, entre os quais “serviços de imprensa abertos 24 horas por dia”. 

Manipulação

Essa resposta manipuladora não convence, pois ela retoma os mesmos argumentos vazios apresentados desde o início da crise, declarou o secretário geral da RSF, Christophe Deloire. "Carrie Lam só conseguirá  superar a crise atual se, em primeiro lugar, ela der a devida importância à ameaça que paira sobre a liberdade de imprensa em Hong Kong”.

Desde o início de junho, a região administrativa especial de Hong Kong (HKSAR) é palco de manifestações em massa contra um projeto de lei de extradição que a chefe do executivo qualificou como “morto”, mas que não foi oficialmente retirado. Ao longo dos últimos dois meses, a polícia e grupos mafiosos pró Pequim atacaram jornalistas inúmeras vezes. 

No Ranking da RSF para a liberdade de imprensa, a região administrativa especial de Hong Kong (HKSAR) caiu da 18a posição em 2002 para a 73a este ano. A China, por sua vez, ocupa a 177a posição de um total de 180.

Os comentários da RSF 

O texto abaixo apresenta as respostas da Chefe do executivo de Hong Kong (em negrito), seguidas dos comentários da RSF: 

  • Não é correto afirmar que o projeto de lei [de extradição] constitui uma ameaça para os jornalistas e suas fontes”. RSF: O regime chinês já demonstrou inúmeras vezes que não precisa de motivos reais para punir aqueles que o criticam. Se essa lei entrar em vigor, ele não presará mais sequestrar aqueles que quiser calar, pois poderá, simplesmente, fazer com que sejam extraditados sob falsas acusações. 

 

  • A polícia respeita a liberdade de imprensa e o direito dos meios de comunicação de cobrir acontecimentos e incidentes públicos”. RSF: AO longo das manifestações em massa dos dois últimos meses, por diversas vezes, a polícia fez dos jornalistas alvos. Alguns foram agredidos a golpes de cassetete, outros foram alvejados por tiros de gás lacrimogênio a queima roupa, e a polícia passou a utilizar holofotes potentes concebidos para impedir fotografias e filmagens. 

  • A polícia investigará ativamente qualquer ato ilegal ou violento para levar os culpados à justiça”. RSF: Inúmeras vozes, entre as quais um grupo de cinquenta responsáveis pelo serviço de inteligência do governo, em uma carta aberta, pediram por uma investigação independente para esclarecer as brutalidades cometidas pela polícia e por gangues mafiosas favoráveis a Pequim. 

  • O governo da HKSAR, há tempos, equipou-se de mecanismos comprovados para facilitar o trabalho dos meios de comunicaçÃo e fornecer informações aos veículos de comunicação e ao público". RSF: Em relatório publicado no dia 7 de julho, a Associação de Jornalistas de Hong Kong (HKJA) lamentou “um dos piores anos” para os jornalistas desde a retrocessão da ex-colônia britânica à China e denunciou “uma política deliberada” de restrição das liberdades jornalísticas.

  • Os serviços de inteligência do governo e o departamento de polícia de Hong Kong oferecem ambos um serviço de imprensa disponível 24 horas por dia”. RSF: A chefe do executivo Carrie Lam, os membros de seu gabinete e os representantes das forças da ordem praticaram amplamente a manipulação, evitando responder com clareza a determinadas perguntas durante as coletivas de imprensa, gerando grande frustração entre os jornalistas.

Ver a carta aberta da RSF aqui  (em inglês, francês e chinês)