Notícia

25 Agosto 2020

Dois jornalistas mortos na Venezuela em menos de uma semana

Fonte: Twitter
Após o assassinato de dois jornalistas com poucos dias de intervalo, a Repórteres sem Fronteiras (RSF) pede às autoridades venezuelanas que conduzam investigações imparciais para identificar, o mais rapidamente possível, os autores e mandantes dos crimes.

Um comando das FAES (Fuerzas de Acciones Especiales), as forças de ação especial venezuelanas, tomaram de assalto, no dia 21 de agosto, a residência de Frankie Torres, diretor do canal local La Guacamaya TV, que mantém o estúdio de gravação em casa, em Cabimas, no estado de Zulia (noroeste do país). Formado por, pelo menos, dez homens fortemente armados, o comando abateu Andrés Eloy Nieves Zacarías, jornalista e cameraman, e Víctor Torres, filho do diretor do canal. Algumas horas depois do crime, as FAES afirmaram que os dois indivíduos abatidos faziam parte de um "grupo delinquente", sem fornecer maiores detalhes - uma declaração imediatamente desmentida pelos parentes e amigos das vítimas.

 

Esse duplo assassinato aconteceu poucos dias após a descoberta do corpo de José Carmelo Bislick, professor e apresentador na rádio Omega 94.1 FM, em 18 de agosto, à beira de uma estrada para Güiria, no estado de Sucre (nordeste do país). Recentemente, Bislick havia denunciado casos de corrupção na região (tráfico de combustível e de drogas, tráfico de pessoas e extorsões na cidade de Güiria).

 

"Esses assassinatos, que vitimaram dois jornalistas que exerciam seu direito de informar, são inqualificáveis. Exigimos que a polícia e a justiça venezuelanas realizem um inquérito imparcial sobre esses atos de violência para determinar os autores e os mandantes, declarou Emmanuel Colombié, diretor do escritório da RSF para a América Latina. A RSF lembra ainda que a censura de estado, as prisões arbitrárias e a violência contra os jornalistas perpetradas, sobretudo, pelas forças de segurança e os serviços de inteligência continuam a se expandir pelo país, constituindo uma grave ameaça à liberdade de expressão."

 

La Guacamaya TV é um veículo de comunicação local próximo à linha oficial do governo de Nicolás Maduro, e José Carmelo Bislick estava envolvido em política pelo Partido socialista Unificado da Venezuela, o partido oficial do governo do presidente Maduro. Essa proximidade ideológica das vítimas com a linha oficial do governo, num país extremamente polarizado, torna esses casos especialmente complexos. Na verdade, na maior parte do tempo, são os jornalistas críticos e independentes do poder instituído que são alvos de ataques.

 

Desde o início de 2020, o centro de estudos independentes Espacio Publico registrou, pelo menos, 270 casos de ataques contra jornalistas e 686 casos de violação do direito à liberdade de expressão no país. Associada a restrições regulares e organizadas do acesso à Internet, a crise do Covid-19 revelou as imensas dificuldades encontradas pelos jornalistas independentes para realizar seu trabalho de informar.

 

A Venezuela ocupa a 147a posição de 180 no Ranking Mundial de Liberdade de Imprensa estabelecido pela RSF em 2020.