Notícia

1 Novembro 2017

Dezoito jornalistas e mídias indicados ao Prêmio RSF 2017

No dia 7 de novembro, a Repórteres sem Fronteiras (RSF) e a TV5-Monde vão entregar o Prêmio da Liberdade de Imprensa. A cerimônia acontecerá em Estrasburgo, no âmbito do Fórum Mundial da Democracia, durante o qual a organização recompensará três premiados nas categorias jornalista, mídia e jornalista cidadão.

São 18 os indicados este ano. Dezoito jornalistas e mídias selecionados pelas equipes da RSF pelo seu profissionalismo, sua independência e seu engajamento a favor da liberdade de imprensa. Três dentre eles receberão o Prêmio RSF-TV5 Monde da liberdade de imprensa, no próximo dia 7 de novembro, em Estrasburgo.


O Prêmio Repórteres sem Fronteiras-TV5 Monde contribui, a cada ano, desde 1992, para os avanços da liberdade de informação, recompensando jornalistas e mídias que se destacaram na defesa ou na promoção da liberdade de informação. Além de sua dimensão honorífica, os prêmios entregues aos vencedores incluem uma recompensa financeira no valor de 2500 euros.


Na categoria jornalista


"Há apenas dois anos, seria inimaginável um jornalista ser levado diante de um tribunal militar na Polônia. O objetivo dessa queixa é intimidar toda uma profissão", confiou Tomasz Piatek à Repórteres sem Fronteiras em julho passado. Esse jornalista investigativo polonês, do jornal de esquerda Gazeta Wyborcza está sendo processado em um tribunal militar pelo ministro da Defesa Antoni Macierewicz, por causa de seu livro muito crítico, “Macierewicz e seus segredos”. Essa investigação revela os laços entre o ministro e pessoas ligadas aos serviços de inteligência russos.


O jornalista pode pegar até três anos de prisão. Desde a publicação do livro, ele foi alvo de ataques violentos por mídias próximas ao poder e sofreu ameaças pesadas.


Figura fundadora do jornalismo no Azerbaijão, Mehman Aliev é também pioneiro no combate por uma informação livre e independente. Quando criou a agência de notícias Turan, em maio de 1990, com alguns amigos, opôs-se à censura soviética. Quase trinta anos depois, Turan é a última mídia independente de um Azerbaijão que ocupa o 162o lugar de 180 no Ranking 2017 da Liberdade de Imprensa da RSF. Nesse meio tempo, a agência, que publica seus ofícios em três idiomas, impôs-se como uma referência, graças ao profissionalismo de seus jornalistas, que não hesitam em cobrir os temas mais sensíveis. Capturado pela repressão, Mehman Aliev foi jogado na prisão no final de agosto e a agência Turan foi forçada a suspender suas atividades. Contudo, diante da pressão internacional, ele foi libertado três semanas depois. E pretende retomar suas atividades.


Jornalista independente, Rana Ayyub escreveu sobre o todo poderoso primeiro ministro indiano Narendra Modi, investigando secretamente a gênese de seu poder e de seu discurso nacionalista, na reportagem Gujarat Files - anatomia de uma cobertura. Criticando as pressões e a autocensura que gangrenam a profissão no país, ela questiona, especialmente, o extremismo hindu e o sistema de castas. Aborda também as violências contra os Sikhs em 1984 e o massacre de muçulmanos em 2002. Todos elementos que a tornam alvo de mensagens de ódio, de assédio e de ameaças por parte daqueles que apoiam o governo. Sua situação e seu engajamento lembram uma compatriota sua, Gauri Lankesh, assassinada em 5 de setembro de 2017.


Alexandre Sokolov é um jornalista investigativo russo especializado em assuntos de corrupção em grande escala, que cobriu para o grupo de imprensa independente RBC. Em agosto de 2017, após dois anos de detenção provisória, foi declarado culpado por ter "participado das atividades de uma organização extremista proibida", em relação com seu engajamento militante passado, e condenado a três anos e meio em colônia penal. A fragilidade das acusações sugere, contudo, que ele foi processado simplesmente por suas atividades jornalísticas. Pouco antes de sua prisão, havia publicado uma investigação muito documentada que expunha os enormes desvios de fundo em um conhecido canteiro de obras públicas, a construção do Cosmódromo de Vostotchny.


O fotojornalista venezuelano-colombiano Miguel Gutierrez é autor de imagens impressionantes do conflito social na Venezuela em 2017. Correspondente da agência EFE, principal agência de notícias em língua espanhola, acompanhou de muito perto as manifestações que deixaram mais de 100 mortos e milhares de feridos em agosto de 2017. Apesar das agressões e do roubo de uma parte de seu equipamento durante uma reportagem no dia 2 de maio, continua a realizar incansavelmente seu trabalho em um contexto cada vez mais polarizado e perigoso. Baseado em Caracas há mais de 10 anos, Miguel cobriu inúmeros temas importantes ligados à situação política da Venezuela, como a escassez, a violência e a pobreza.


Masoumeh Hidary, 35 anos, é a diretora da Rádio Sahar, uma rádio para mulheres e operada por mulheres. A rádio aborda problemáticas como a violência contra as mulheres, sua situação social e o olhar que a sociedade afegã tem com relação às mulheres nas províncias tradicionalistas. No passado, Masoumeh Hidary trabalhou como jornalista e apresentadora de várias rádios da província de Herat, assim como para diversas mídias nacionais e a radiotelevisão nacional. A Rádio Sahar iniciou suas atividades um ano após a queda dos Talibãs em 2004. Em 2010, devido a problemas financeiros e de segurança, a rádio encerrou suas transmissões. Em dezembro de 2016, pôde retomar suas atividades sob a direção de Masoumeh Hidary.


Importante figura do jornalismo mexicano, Carmen Aristegui nunca teve meias palavras com relação ao governo. Essa jornalista apresenta o programa Aristegui na CNN em espanhol e dirige o site de informações Aristegui Notícias. Há anos, é alvo recorrente de pressões e ameaças ligadas a seu trabalho, especialmente devido a suas posições muito críticas com relação ao governo. Em novembro de 2016, as instalações da redação do Aristegui Notícias foram invadidas e inúmeros arquivos de investigações em andamento foram roubados. Em junho de 2017, um vasto sistema de vigilância ilegal tendo por alvo jornalistas foi atualizado. Carmen Aristegui, que acabava de revelar um escândalo ligado ao casal presidencial, foi uma das vítimas. O trabalho da jornalista foi coroado por diversos prêmios internacionais.



Na categoria jornalista cidadão



Ahmed Mansoor, blogueiro dos Emirados, é uma das raras vozes independentes capazes de informar sobre a situação dos Direitos Humanos e liberdades em seu país. Está preso desde 19 de março passado, acusado de ter "publicado informações falsas" nas redes sociais, de ter "colocado em perigo a unidade nacional" e de ter "atentado contra a reputação dos Emirados". Nas semanas que precederam sua prisão, Ahmed Mansoor havia pedido a libertação do militante de Direitos Humanos Osama Al Najjar e havia se manifestado contra a condenação a dez anos de prisão de Nasser bin Ghaith, acadêmico e militante. Em 2015, Ahmed Mansoor recebeu o prêmio Martin Ennals por seu engajamento a favor dos direitos humanos.


Expoente da liberdade de informação em um país cujas autoridades controlam fortemente a população e as mídias, Pham Minh Hoang foi, inúmeras vezes, vítima de assédio moral e judicial por parte das autoridades. Em 2011, foi condenado por tentativa de subversão. Seu crime: manter um blogue que documenta assuntos de educação, corrupção e meio-ambiente. Até mesmo sua família foi alvo de ameaças pouco após sua saída da prisão. Em junho passado, diante de sua recusa em ceder às pressões, o partido no governo decidiu finalmente, em total contradição com a Constituição, destituí-lo de sua nacionalidade para expulsá-lo do Vietnã. Apegado ao seu país, ele luta para recuperar sua nacionalidade e reencontrar sua família.


Maxence Mello está sendo processado pela justiça da Tanzânia que quer forçá-lo a revelar a identidade dos colaboradores da Jamii Forums, a maior plataforma cidadã de notícias na África Oriental, da qual ele é o fundador. Através dessa plataforma, ele contribuiu para revelar escândalos de corrupção envolvendo inúmeras grandes empresas privadas próximas ao governo. Escrito essencialmente em suaíli, o site garante o anonimato de seus usuários, realizando ainda verificações rigorosas de identidade, para evitar a desinformação. Segundo Maxence Melo, mais de 50% dos parlamentares são assinantes do fórum e inúmeros jornalistas encontram inspiração nas informações reveladas pelos usuários da Jamii Forums para seus artigos sobre assuntos de corrupção.


Soheil Arabi, fotógrafo, foi detido no final de 2013, em Teerã. Mantido durante dois meses em isolamento, foi vítima de maus tratos com a intenção de fazê-lo confessar seu envolvimento na organização de uma rede no Facebook com blasfêmias contra o Islã e difusão de informações criticando o governo. Seguiu-se uma longa saga judicial, ao longo da qual ele foi sucessivamente condenado a três anos de prisão, 30 chibatadas e uma multa pesada, e, alguns meses mais tarde, à pena capital, pena essa finalmente anulada. Em setembro de 2015, foi condenado a sete anos e meio de prisão em regime fechado. Em julho de 2017, sua mulher foi presa e libertada oito dias mais tarde. Ela ainda é alvo de assédio e ameaças. No final de agosto, Soheil Arabi entrou em greve de fome.



Na categoria mídias




Mada Masr é uma mídia de referência, tanto no Egito quanto no exterior, por suas coberturas de temas sensíveis pouco divulgados pela imprensa local. Foi criada em 2013 por um grupo de jovens jornalistas que fizeram escola na Egypt Independent, proibida após a publicação de um artigo criticando as forças armadas. O Mada Masr, que publica em árabe e em inglês, tem como missão cobrir a atualidade no Egito de maneira engajada e independente, o que fez com que fosse censurado. Faz parte dos primeiros sites bloqueados em maio passado no Egito, durante a campanha de blackout digital que afeta hoje centenas de sites no país. Desde então, seus artigos são publicados em sua página no Facebook.


Esse jornal de língua árabe independente era o último bastião da liberdade de expressão no reino do Barein, onde as vozes livres são reprimidas e correm o risco de pesadas penas de prisão sob pretexto de acusações falaciosas. Desde 4 de julho passado, o Al-Wasat foi arbitrariamente suspenso pelas autoridades, devido a "violações recorrentes da lei". O jornal é acusado de incitação à divisão e tentativa de minar as relações estrangeiras do Reino, devido a um artigo sobre os recentes movimentos de contestação no Marrocos. Na mira das autoridades há anos, o Al-Wasat, já suspenso várias vezes desde sua criação em 2002, precisou, desta vez, demitir todos os seus funcionários (mais de 160), o que coloca sua sobrevivência claramente em risco.


Fundado em 1993 para contribuir com o advento de uma imprensa livre no Camboja, o Cambodia Daily, na mira das autoridades, publicou sua última edição no dia 4 de setembro passado. O jornal, publicado em inglês e em khmer, foi uma fonte de informações independente durante quase um quarto de século em um país onde grande parte das mídias está submetida às diretrizes do governo. Os cerca de trinta colaboradores do jornal nunca hesitaram em denunciar casos de corrupção ou agressão ao meio-ambiente. A um ano das eleições gerais, o atual governo de Hun Sen adotou uma política intensiva de repressão da liberdade de imprensa da qual o Cambodia Daily foi uma das vítimas. Alvo de assédio financeiro, o Cambodia Daily sobrevive hoje na Internet.


Criada em 2002 na cidade mineira de Illaka, a Radio Jupiter é uma das raras rádios locais independentes em Madagascar. Seu criador, Fernand Cello, sempre se dedicou a denunciar os conluios entre as autoridades locais e as empresas privadas. Em 2005, a rádio foi vítima de um incêndio criminoso, mas conseguiu reabrir as portas em 2012. Em agosto de 2016, a estação se viu privada de eletricidade depois de ter questionado no ar a empresa local de energia elétrica. Em resposta, a Radio Jupiter se equipou com painéis solares e continuou com seu trabalho. Porém, em dezembro do mesmo ano, a polícia apreendeu seu transmissor e as autoridades abriram um processo contra seu fundador por "conclamação à rebelião". Seu erro: ter denunciado a exploração mineira selvagem da empresa Gondwana (indiciada desde então). Fernand Cello foi detido quando estava hospitalizado, em 2017, e jogado na prisão, onde espera ainda pela data do julgamento.



Río Doce é uma revista semanal (impressa e online), fundada em 2003 e sediada no estado de Sinaloa, no México, um dos mais afetados pelo crime organizado. A revista é especializada em coberturas de longa duração e investigações. Sua independência e seus pontos de vista críticos fizeram com que inúmeros jornalistas fossem ameaçados e com que fosse publicamente difamada pelas autoridades de Sinaloa. Em 15 de maio de 2017, um dos fundadores da Rio Doce, Javier Valdez Cárdenas (também correspondente da AFP) foi assassinado por homens armados e encapuzados. O jornalista era especializado no tema tráfico de drogas. Sua morte provocou uma onda de choque através do país, suscitando inúmeras manifestações de solidariedade de jornalistas.



A Factum é uma revista online de El Salvador fundada em 2014 por dois jornalistas, um especializado em cultura e entretenimento e outro, em corrupção e tráfico de drogas. Em 2017, a Factum publicou uma reportagem, Na intimidade do esquadrão da morte da polícia, revelando a existência de um grupo na polícia nacional civil encarregado de exterminar as pandillas (grupos de delinquentes/armados) e cujas práticas são tão violentas quanto ilegais. Um inquérito foi aberto pela justiça salvadorenha após a publicação da reportagem. Mas o caso gerou campanhas de difamação, de assédio, de intimidações e ameaças de morte contra os jornalistas da Factum e da El Faro (outra mídia que divulgou as revelações), ameaças vindas, especialmente, de grupos próximos à polícia.


A luta por uma informação independente está na origem da Medyascope, lançada em setembro de 2015 pelo grande jornalista Ruşen Çakır. Seu mote: "Porque é livre". Essa plataforma online pretende aliar novas tecnologias e melhores padrões de jornalismo para reabrir um debate público bloqueado na Turquia, país que ocupa o 155o lugar de 180 no Ranking Mundial da Liberdade de Imprensa da RSF. Através de vídeos transmitidos ao vivo e depois disponibilizados em podcast, a Medyascope devolve a voz aos jornalistas marginalizados pela repressão e aos jornalistas cidadãos. Seus programas se estruturaram e enriqueceram rapidamente, até cobrir todos os assuntos: política, sociedade, cultura, esporte... Algumas emissões estão disponíveis nos idiomas curdo, inglês, alemão e francês, como é o caso do podcast semanal anglófono This Week in Turkey.