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16 Abril 2020 - Atualizado a 4 Maio 2020

Como o presidente Bolsonaro tenta, metodicamente, silenciar a imprensa crítica

A Repórteres sem Fronteiras (RSF) divulga a primeira parte de uma série de publicações trimestrais sobre a liberdade de imprensa no Brasil em 2020 e expõe a estratégia do presidente Jair Bolsonaro para desacreditar jornalistas e meios de comunicação.

Insultar, desmoralizar, estigmatizar e humilhar jornalistas no momento em que são divulgadas informações contrárias aos seus interesses ou aos de seu governo: eis o método implementado pelo presidente brasileiro Jair Bolsonaro desde sua posse, em janeiro de 2019. Os ataques são sistematicamente repercutidos por familiares, que também ocupam cargos eletivos, alguns de seus ministros e um exército de apoiadores mobilizados nas redes sociais.

 

Multifacetados, estes ataques à imprensa seguem uma estratégia definida e cada vez mais bem estruturada de semear a desconfiança em relação ao trabalho dos jornalistas, destruir sua credibilidade e, gradualmente, construir a imagem de um inimigo comum. O objetivo implícito é evitar prestar contas à sociedade sobre o que as notícias trazem à tona, na tentativa de manter um maior controle do debate público. Durante os primeiros três meses do ano, a RSF registrou ao menos 32 casos de ataques do presidente Bolsonaro contra jornalistas e à imprensa em geral, uma média de um a cada três dias.



A intensificação dos ataques no contexto da pandemia

 

"Brevemente o povo saberá que foi enganado por grande parte da mídia", disse o presidente Bolsonaro em entrevista à TV Record, no domingo 22 de março. Naquele dia, o Brasil contabilizava oficialmente 1.800 pessoas infectadas e 34 mortes relacionadas ao novo coronavírus. Dois dias depois, após qualificar a Covid-19 como "gripezinha", ele acrescentou durante um pronunciamento oficial em cadeia nacional que: "grande parte dos meios de comunicação espalhou uma sensação de pavor, tendo como carro-chefe o grande número de vítimas na Itália, um país com grande número de idosos e com um clima totalmente diferente do nosso (…) Um cenário perfeito, potencializado pela mídia, para que a histeria se espalhasse em nosso país."  Em 28 de março, seu próprio Ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, seguiu o exemplo, qualificando, durante uma entrevista, o trabalho da imprensa como 'sórdido' e 'tóxico', convidando os brasileiros a ''desligar a televisão um pouco".

 

Na medida em que a epidemia se espalha pelo país, com 28.320 pessoas infectadas e 1.736 mortes relacionadas ao vírus no momento em que publicamos esta análise, o presidente mantém a postura negacionista e faz campanha pelo fim das medidas de isolamento social. Nos dias 29 e 30 de março, o Twitter e o Instagram apagaram publicações das contas oficiais de Jair Bolsonaro por violarem as regras das plataformas. As cenas do presidente desfilando pelas ruas de Brasília, se misturando com a população, questionavam a utilidade do isolamento numa total contradição tanto com as instruções de seu próprio governo, quanto com as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS).

 

Publicação é apagada da conta oficial do presidente por violar as regras do Twitter, no dia 29 de março de 2020


Humilhações públicas e linchamentos online

 

Evidenciados pela crise da Covid-19, os ataques a jornalistas vêm se intensificado desde o início da campanha presidencial de 2018. As provocações se ampliaram, se diversificaram e passaram a incluir tentativas de humilhações públicas.

 

No dia 3 de março de 2020, durante sua coletiva de imprensa em frente ao Palácio da Alvorada, em Brasília, Jair Bolsonaro apareceu acompanhado de um humorista disfarçado de presidente, que distribuiu bananas aos jornalistas presentes. Incomodado com uma pergunta sobre o fraco desempenho do PIB no seu primeiro ano de mandato, o presidente, rindo, pediu ao comediante que respondesse por ele. A cena surreal foi transmitida ao vivo nas redes sociais da Presidência


Presidente Bolsonaro acompanhado de um comediante provoca jornalistas na frente do Palácio da Alvorada, no dia 3 de março de 2020 em Brasília.  (Imagem: Dida Sampaio / Estadão Conteúdo)


Na quinta-feira, 26 de março, ele voltou a provocar um grupo de jornalistas que o aguardava na saída da sede do executivo federal. Dirigindo-se a apoiadores também presentes, ele declara: "Atenção povo do Brasil, esse pessoal (aponta para os repórteres) diz que estou errado e que você tem que ficar em casa.” E então, voltando-se aos jornalistas: "O que vocês estão fazendo aqui? Não têm medo do coronavírus? Voltem para casa!".


Esses ataques permanentes encontram um eco específico nas redes sociais, nas quais o presidente é particularmente ativo e onde não hesita em espalhar informações falsas (em particular, sobre o uso de cloroquina).


Em seu relatório anual, a Abert (Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão) contabilizou quatro milhões de ataques online contra os meios de comunicação profissionais e os jornalistas em 2019, ou sete ataques por minuto. O relatório também indica que, dos 39,2 milhões de posts com as palavras 'imprensa', 'jornalista', 'jornalismo' e 'mídia', 10% foram ataques diretos, oriundos principalmente da classe política e dos sites de notícias conservadores próximos ao presidente Bolsonaro. "Os jornalistas que publicam conteúdos críticos à gestão se tornaram alvos sistemáticos de ataques online, promovidos por robôs e apoiadores do governo, que têm como objetivo minar a credibilidade da imprensa”, aponta o documento.


Os filhos do presidente estão entre os mais agressivos com os jornalistas nas redes sociais. Apenas no mês de março de 2020, a RSF monitorou 30 ataques e comentários ofensivos a repórteres e à imprensa em geral publicados pelo deputado Eduardo Bolsonaro na sua conta oficial do Twitter.


A deputada Joice Hasselmann, ex-aliada do presidente, revelou a existência de um "gabinete do ódio", que mobiliza de forma coordenada ataques a opositores e figuras públicas críticas ao governo, entre os quais jornalistas. Segundo a deputada, o grupo, composto por assessores próximos ao presidente, é coordenado por seu filho Carlos Bolsonaro. O gabinete de ódio integra a lista de Predadores Digitais da Liberdade de Imprensa publicada pela RSF em 10 de março de 2020.


Ataques misóginos contra mulheres jornalistas 


Dentre as inúmeras vítimas desse sistema de ofensas, as mulheres constituem um alvo privilegiado. Patricia Campos Mello, uma das mais renomadas jornalistas brasileiras, repórter do jornal Folha de São Paulo, é um dos alvos preferidos de apoiadores do governo. Durante a campanha eleitoral de 2018, ela revelou numa reportagem que empresas privadas estavam pagando por serviços de disparos em massa de mensagens pelo aplicativo WhatsApp para promover uma campanha para atacar o adversário do então candidato à presidência Jair Bolsonaro. Após a publicação, a jornalista foi violentamente atacada, insultada e ameaçada nas redes sociais.


Com base nas reportagens sobre o caso, a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito das (CPMI) Fake News convocou para depor, no dia 11 de fevereiro de 2020, Hans River do Nascimento; antigo funcionário de uma das empresas de marketing digital supostamente envolvidas no disparo das mensagens durante a campanha eleitoral. Hans foi uma das fontes contactadas pela jornalista para a elaboração das reportagens. Durante seu testemunho, ele afirmou que a jornalista havia se insinuado sexualmente em troca de informações.


Embora imediatamente desmentidas pela jornalista e pela redação da Folha de São Paulo, essas declarações geraram uma enxurrada de comentários escandalosos - principalmente do próprio Jair Bolsonaro -, repercutidos por deputados federais, incluindo o filho do presidente, o deputado Eduardo Bolsonaro. Na Câmara, Eduardo declarou não duvidar que "a senhora Patrícia Campos Mello, como afirma Hans, poderia ter oferecido favores sexuais em troca de informações, a fim de prejudicar a campanha do presidente Jair Bolsonaro”. Essas insinuações foram amplamente divulgadas nas redes sociais e geraram uma nova onda de ameaças e insultos sexistas e misóginos contra Patrícia Campos Mello.

 

Vera Magalhães, outra jornalista de renome e apresentadora de um dos mais importantes programas de entrevistas da televisão brasileira, o Roda Viva, na TV Cultura, também foi alvo de ataques sistemáticos ao longo do primeiro trimestre de 2020. Sobretudo depois de uma apuração sua ter revelado que Bolsonaro havia compartilhado, em privado, mensagens convocando manifestações que tinham como bandeira ataques ao Supremo Tribunal Federal (STF) e ao Congresso.


Além de Patrícia e Vera, a jornalista Constança Rezende também é alvo regular de campanhas de ódio nas redes por conta de suas revelações sobre o governo brasileiro.

 

Um relatório encomendado pela ONU e publicado em 13 de março de 2020 pela Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) confirma a agressividade e o machismo característicos do comportamento do presidente Bolsonaro e de seus apoiadores. O documento lista pelo menos 20 'ataques de gênero' contra jornalistas, incluindo 16 diretamente perpetrados por autoridades públicas.

 

Pressões judiciais, pressões econômicas: quando o aparato estatal entre em jogo

 

Além de seus apoiadores mais leais, o governo federal também mobiliza instituições públicas para sua luta contra a imprensa crítica e independente. 


A perseguição ao jornalista americano Glenn Greenwald, fundador do site de notícias The Intercept Brasil (TIB), é um caso particularmente emblemático. Desde junho de 2019, o TIB publicou uma série de reportagens que revelaram graves irregularidades na operação “Lava Jato”. Os artigos, que tornaram públicas as comunicações comprometedoras entre vários promotores de justiça e membros do judiciário brasileiro, obtidas graças a uma fonte anônima, provocaram uma onda de ataques contra Glenn, sua família e seus colegas de trabalho. Em julho de 2019, sem nenhum argumento válido, o presidente Jair Bolsonaro declarou que o jornalista poderia "pegar uma cana aqui no Brasil". Ainda que a polícia federal e o Supremo Tribunal Federal tenham concluído que Glenn Greenwald efetivamente respeitara a lei e tenham reafirmado o direito constitucional à proteção das fontes, o Ministério Público Federal brasileiro o acusou formalmente, em 21 de janeiro de 2020, de ter "ajudado, incentivado e orientado" o grupo de hackers que supostamente lhe forneceram as informações. 


Esse tipo de pressão judicial também pode ser acompanhado de pressão financeiras, destinadas a asfixiar economicamente jornalistas e meios de comunicação. O presidente Bolsonaro e suas equipes têm repetida e publicamente conclamado a população a boicotar empresas que anunciam no jornal Folha de São Paulo. O presidente também incentivou os anunciantes a favorecer os meios de comunicação “alinhados ao governo". Uma estranha concepção de pluralismo.


A Secom, Secretaria de Comunicação da Presidência da República, responsável entre outras atribuições pela distribuição da publicidade oficial, também está na mira do Tribunal de Contas da União (TCU) desde o início do ano por supostamente não ter respeitado os critérios de transparência e equidade na distribuição desses recursos. Os grupos Record e SBT, cujos proprietários - Edir Macedo e Silvio Santos - são próximos do presidente, receberam mais recursos do que o grupo Globo, que no entanto os ultrapassa amplamente em termos de audiência e com o qual o presidente Bolsonaro está em conflito permanente.


Diante desses ataques sistemáticos e institucionalizados à liberdade de imprensa, a RSF participou, com uma coalizão de organizações parceiras, de uma audiência pública temática sobre a situação da liberdade de expressão no Brasil promovida pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) da Organização dos Estados Americanos (OEA), na sexta-feira, 6 de março de 2020, em Porto Príncipe, capital do Haiti. Foi a primeira vez que a CIDH aceitou uma audiência pública para tratar da situação da liberdade de expressão no país, um forte símbolo e reconhecimento por parte da OEA sobre a profunda deterioração das condições para o livre exercício do jornalismo desde que Jair Bolsonaro chegou ao poder.


O Brasil ocupa a 105a posição no Ranking Mundial da Liberdade de Imprensa de 2019, elaborado pela Repórteres sem Fronteiras.