Notícia

31 Maio 2019

Colômbia: onda inquietante de intimidação de jornalistas após revelações sobre o exército.

Leonardo Muñoz/EPA vía Shutterstock
Após os ataques e tentativas de intimidação que acompanharam a publicação de um artigo no New York Times comprometedor para as autoridades colombianas, a Repórteres sem Fronteiras (RSF) denuncia um clima tóxico para o jornalismo independente na Colômbia e pede às autoridades que respeitem o trabalho da imprensa.

Em 18 de maio de 2019, um artigo do New York Times (NYT) revelou que o comandante-chefe do exército colombiano, Nicacio Martínez, exigiu que suas tropas dobrassem o número de capturas e eliminação de criminosos, alertando para o risco de mais execuções extrajudiciais de civis por militares. Essas revelações, baseadas em documentos oficiais do exército e depoimentos de oficiais de alta patente, desencadearam uma série de declarações agressivas e ameaças contra o jornalista do diário, Nicholas Casey

 

O Ministro da Defesa, Guillermo Botero, denunciou imediatamente um artigo "cheio de inconsistências", rapidamente seguido por inúmeras figuras políticas, como os senadores Álvaro Uribe Vélez (ex-Presidente da República) e Maria Fernanda Cabal, que insinuou no Twitter, baseado em fotos montadas, que o autor do artigo era corrupto e um antigo informante das Farc. Amplamente difundidas nas redes sociais, essas reações agressivas foram acompanhadas por insultos e ameaças contra Nicholas Casey e Frederico Rios, fotógrafo freelancer e colaborador do NYT na Colômbia, forçando os dois repórteres a deixar o país em 19 de maio, para garantir sua segurança.

 

Apesar desses ataques, questionando a seriedade do trabalho do NYT, o governo colombiano criou em 24 de maio uma comissão de inquérito independente sobre essas diretivas do exército. Em 28 de maio, o Procurador Geral de Justiça abriu um inquérito preliminar contra Nicacio Martínez e, em 29 de maio, o exército colombiano anunciou que modificaria as instruções dadas às tropas de combate.

 

"Este caso ilustra as grandes dificuldades que a imprensa enfrenta para abordar certos temas de interesse público comprometedores para a classe política e as autoridades colombianas", declarou Emmanuel Colombié, diretor do escritório da América Latina para a RSF. "As declarações estigmatizantes e as tentativas de intimidação antes e depois do artigo em questão são inaceitáveis e indignas. Elas representam uma séria ameaça à liberdade de imprensa na Colômbia. O presidente Ivan Duque e sua administração devem encorajar o surgimento de uma imprensa independente, um fundamento necessário para qualquer democracia digna desse nome. "

 

O caso também gerou comoção na imprensa colombiana, parte da qual já possuía as informações reveladas pelo New York Times. Daniel Coronell, jornalista e editorialista de renome, questionou, em um artigo publicado no semanário Semana, em 26 de maio, o fato de que a direção da revista estava de posse das informações reveladas pelo NYT desde o mês de fevereiro, mas decidiu não torná-las públicas. Após a publicação do editorial, Daniel Coronell foi demitido sem qualquer explicação concreta, após mais de 19 anos de colaboração com o veículo Semana. Contatado pela RSF, Daniel Coronell declarou: "o governo tentou abafar este caso, sem saber que ele seria ressuscitado pelo NYT. Coronell também lamenta que "a autocensura seja uma prática cotidiana em muitas redações da Colômbia ..."

 

A Colômbia ocupa o 130o lugar de 180 no Ranking Mundial da Liberdade de Imprensa estabelecido pela RSF em 2018.