Notícia

22 Outubro 2021 - Atualizado a 25 Outubro 2021

Brasil: um deputado acusado do sequestro e tortura de um jornalista em Roraima

Sequestrado em sua casa, o jornalista Romano dos Anjos foi dado como desaparecido por 12 horas até ser encontrado coberto de hematomas
A Repórteres Sem Fronteiras (RSF) saúda o andamento das investigações sobre o sequestro e tortura do jornalista Romano dos Anjos, que culminou na prisão do deputado Jalser Renier. A justiça deve agora estabelecer claramente a cadeia de responsabilidade neste caso terrível e determinar sanções exemplares contra os autores dos crimes.

Em 1º de outubro de 2021, Jalser Renier, deputado do estado de Roraima (norte do Brasil) foi formalmente acusado de ser o mandante do sequestro e tortura do jornalista Romano dos Anjos, que ocorreu em outubro de 2020. O delegado encarregado da investigação, João Luiz Evangelista, afirmou ter reunido evidências sólidas de que o ataque “foi realizado diretamente pela Polícia Militar, em ligação com a Assembleia Legislativa de Roraima e sob as ordens de Jalser Renier, presidente da Assembleia na época dos fatos".


No final de setembro de 2021, o site de notícias G1 já havia revelado várias interferências do deputado na investigação. Em novembro de 2020, ainda presidente da Assembleia Legislativa, Jalser Renier teria ameaçado o governador do estado, Antônio Denarium, com o objetivo de obstruir o inquérito policial sobre o sequestro de Romano dos Anjos. Desde 5 de outubro, o deputado está em prisão domiciliar com tornozeleira eletrônica, aguardando julgamento.


“A RSF saúda o andamento da investigação policial de Roraima sobre esse caso sórdido. A participação ativa do deputado Jalser Renier no sequestro e tortura de Romano dos Anjos é absolutamente chocante, afirmou o diretor do escritório da RSF na América Latina, Emmanuel Colombié. A prisão preventiva do deputado deve permitir uma investigação eficaz e totalmente imparcial, e conduzir a sanções judiciais exemplares para todos os responsáveis pelos atos. As autoridades brasileiras, em âmbito local e federal, devem garantir a proteção dos jornalistas, cujo trabalho de informação é mais vital do que nunca no país”.


No dia 26 de outubro de 2020, Romano dos Anjos, apresentador da TV imperial, foi sequestrado e torturado por três homens armados na região de Bom Intento, zona rural de Boa Vista, capital do estado de Roraima. Sequestrado em sua casa, o jornalista de 40 anos foi dado como desaparecido por 12 horas até ser encontrado na periferia da cidade, coberto de hematomas, com o braço esquerdo quebrado e com uma luxação do pé direito. Seu carro foi queimado e sua esposa foi encontrada amarrada na residência do casal. Na época, nenhum suspeito foi preso.


Poucos dias antes de seu sequestro, Romano dos Anjos havia denunciado em seu programa Mete Bronca as irregularidades e a corrupção que assolam a gestão do orçamento federal destinado ao combate à Covid-19, segundo Leiliane Matos, diretora de informação da TV imperial.

Ao disseminar as críticas no rádio e na televisão, “Romano dos Anjos se tornou uma pedra no sapato de Jalser Renier”, disse o delegado João Luiz Evangelista.


A detenção se insere também no âmbito da operação 'Pulitzer', realizada pela polícia de Roraima e que revelou a existência de uma verdadeira organização criminosa, especializada em espionagem, informação e segurança privada, coordenada por Jalser Renier da Assembleia Legislativa de Roraima, envolvendo membros da Polícia Militar e oficiais do Exército.


Em um contexto político tenso, a imprensa está cada vez mais vulnerável no Brasil. Em 9 de setembro de 2021, o jornalista Jerry de Oliveira, apresentador e coordenador da rádio comunitária Rádio Noroeste FM, sediada em Campinas (São Paulo), foi ameaçado de morte por um homem armado que lhe ordenou parar de “falar mal de Bolsonaro”. Desde então, as ameaças foram repetidas em vídeos na Internet, colocando Jerry de Oliveira em uma situação muito vulnerável.


A Rádio Noroeste FM é conhecida por suas críticas regulares ao presidente Bolsonaro e por sua linha editorial pró-direitos humanos, o que lhe rendeu ataques e ameaças constantes nas redes sociais, organizados pela classe política conservadora da cidade de Campinas. Jerry de Oliveira apresentou queixa à Polícia Militar em Campinas e à Ouvidoria da Polícia Militar do Estado de São Paulo. Também solicitou apoio ao Programa de Proteção a Defensores de Direitos Humanos, Comunicadores e Ambientalistas do Estado brasileiro.


Esta semana, um dos suspeitos das ameaças foi levado pela Polícia para prestar depoimento em Campinas. O comunicador instalou câmeras de segurança em sua casa e na sede da emissora e aguarda o andamento das investigações


"A RSF pede às autoridades que garantam a proteção do radialista Jerry de Oliveira e dos outros comunicadores que atuam na rádio Noroeste FM de Campinas. A ameaça de morte constitui uma violência contra a integridade física do jornalista, mas também uma violação grave do direito à liberdade de expressão. As investigações devem ser realizadas de forma célere e exemplar para responsabilizar os autores e impedir que ações de intimidações semelhantes voltem a acontecer", declarou Emmanuel Colombié, diretor da RSF América Latina, sobre o caso.


O Brasil ocupa o 107o lugar de 180 no Ranking Mundial da Liberdade de Imprensa estabelecido pela RSF em 2021.