Notícia

9 Outubro 2020

Angola: um site de notícias e um jornalista vítimas de ciberataques

© iStock/MF3d
A Repórteres sem Fronteiras (RSF) denuncia ataques cibernéticos contra um jornal online e um jornalista logo depois de transmitirem informações sobre um caso envolvendo o braço direito do presidente. A RSF pede a abertura de um inquérito para identificar e punir os autores do crime.

Na sexta-feira, 25 de setembro, dezenas de milhares de usuários se conectaram ao Correio Angolense, um dos sites de notícias independentes mais conceituados de Angola. Esse tráfego incomum causou a interrupção do site, que permanece indisponível até o momento. De acordo com seu diretor, Graça Campos, contatado pela RSF, tudo indica que se trata de um ciberataque.


No momento do ocorrido, o site do jornal acabava de publicar um artigo sobre Edeltrudes Costa, chefe de gabinete do presidente da república, envolvido recentemente em um caso de desvio de fundos públicos. O escândalo foi inicialmente revelado pelo canal português Televisão Independente (TVI), segundo o qual o braço direito do presidente teria se apropriado de vários milhões de dólares de fundos públicos para colocá-los em paraísos fiscais ou para comprar residências de luxo em Portugal, ainda que o presidente João Lourenço tenha feito da luta contra a corrupção um de seus principais compromissos desde a chegada ao poder em 2017.


Durante sua investigação, a RSF também foi informada de que seu ex-correspondente e jornalista freelancer, Siona Casimiro, também teve seu computador invadido enquanto trabalhava no mesmo assunto. Contatado pela nossa organização, o jornalista afirmou não haver “dúvidas sobre a vontade de silenciar os jornalistas sobre o caso Edeltrudes Costa”.


"Estamos profundamente preocupados com esses ciberataques, sem precedentes desde a chegada ao poder do presidente Lourenço, declarou Arnaud Froger, diretor do escritório da RSF para a África. Se as autoridades angolanas são sinceras e apartidárias no seu desejo de combater a corrupção, devem proteger aqueles e aquelas que, tal como os jornalistas, contribuem para esse tipo de revelação. Permitir que esses ataques se multipliquem constituiria um sério revés para a liberdade de imprensa em Angola. Pedimos às autoridades que abram um inquérito para identificar e punir os autores desses ataques.”


Figura do jornalismo independente em Angola, Graça Campos tem sido regularmente alvo das autoridades. Processado por personalidades políticas, ele foi condenado várias vezes e chegou a passar algumas semanas na prisão em 2007, conforme denunciado pela RSF na época.


O escândalo envolvendo o colaborador mais próximo do presidente é um tema altamente sensível em Angola e alguns meios de comunicação decidiram deliberadamente não falar mais sobre o assunto. O jornalista de economia Carlos Rosado anunciou, assim, ter encerrado sua colaboração com a Zimbo TV depois de sua proposta de escrever uma coluna sobre o caso ter sido recusada e de ter sido excluído dos convidados programados pela Palanca TV para um debate sobre o ambiente de negócios em Angola.


Angola ocupa, atualmente, o 106º lugar entre 180 países no Ranking Mundial da Liberdade de Imprensa estabelecido pela RSF a cada ano.