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21 Dezembro 2021 - Atualizado a 22 Dezembro 2021

Afeganistão: mais de 40% dos meios de comunicação fechados e 80% das jornalistas mulheres desempregadas desde que os talibãs assumiram o poder

Um estudo da Repórteres sem Fronteiras (RSF) com a Associação de Jornalistas Independentes do Afeganistão (AJIA) revela uma mudança radical na paisagem midiática afegã desde que os talibãs chegaram ao poder. Um total de 231 veículos de comunicação foram fechados e mais de 6.400 jornalistas perderam seus empregos desde 15 de agosto de 2021. As jornalistas afegãs são as mais afetadas: quatro em cada cinco não trabalham mais.

As consequências da ascensão  talibã na paisagem midiática afegã são claras: de acordo com um estudo realizado pela RSF com sua parceira local AJIA, mais de 4 em cada 10 veículos de comunicação desapareceram e 60% dos jornalistas e colaboradores da mídia agora não podem trabalhar. As mulheres são muito mais afetadas do que os homens: 84% delas perderam o emprego. Essas estatísticas foram calculadas com base em um censo do número de veículos de comunicação e jornalistas ativos antes de os talibãs assumirem o poder em 15 de agosto de 2021.

Uma mudança radical na paisagem midiática afegã

A chegada dos talibãs mudou radicalmente a paisagem midiática: dos 543 veículos de comunicação identificados no início do verão, apenas 312 ainda funcionavam no final de novembro de 2021. Isso significa que, em três meses, 43% dos veículos de comunicação afegãos desapareceram.




Enquanto há quatro meses a maioria das províncias do Afeganistão contava com pelo menos dez veículos de comunicação privados, hoje, algumas regiões se encontram quase sem meios de comunicação locais. Na província montanhosa de Parwan, no norte, só restam 3 veículos ativos dos 10 que existiam antes. A oeste, na região de Herat, terceira maior cidade do país, ainda funcionam apenas 18 veículos (de um total de 51), o que representa uma queda de 65%. A região de Cabul, no centro, que concentra o maior número de veículos de comunicação do país, não escapou do massacre e perdeu mais de um em cada dois veículos (51%): dos 148 veículos de comunicação identificados antes de 15 de agosto, apenas 72 ainda operavam no final de 2021.


Um impacto direto sobre os jornalistas 


O fechamento ou diminuição da atividade dos meios de comunicação teve um impacto significativo no emprego de todos os profissionais da informação: das 10.790 pessoas que trabalhavam nas redações afegãs (8.290 homens e 2.490 mulheres) no início de agosto, apenas 4.360 ainda estavam ativas no momento do estudo (3.950 homens e 410 mulheres), ou 4 em cada 10 jornalistas. Proporcionalmente, as mulheres foram muito mais afetadas: mais de 4 em cada 5 (84%) perderam seus empregos desde a chegada dos talibãs, comparado a apenas um em cada dois homens (52%).



Mais nenhuma jornalista mulher em grande parte do Afeganistão



Em seis províncias, três quartos de seus jornalistas homens perderam seus empregos. Mas em 15 das 34 províncias do país, não há mais nenhuma jornalista mulher trabalhando.  Por exemplo, na província de Jowzjan, no norte, que tinha 19 veículos de comunicação empregando 112 mulheres, apenas 12 veículos de comunicação ainda estão funcionando, e sem nenhuma mulher.


Em muitas localidades, a mídia deve respeitar as condições estabelecidas localmente pelos talibãs que controlam essas áreas, o que inclui a marginalização de mulheres jornalistas. Mesmo em regiões onde tradicionalmente estavam mais presentes, como Cabul, as jornalistas também desapareceram em grande parte da paisagem midiática. Dezenas delas voltaram a trabalhar nos últimos dois meses (menos de 100 ousavam visitar suas redações nas semanas que se seguiram à chegada dos talibãs à capital e sua ordem para que as mulheres ficassem em casa). Mas ao final, das 1.190 jornalistas e colaboradoras da mídia identificadas no início de agosto na capital, apenas 320 continuam trabalhando hoje, o que representa uma redução de 73%.


 




Na província de Nangarhar, onde quatro mulheres profissionais da informação foram mortas em menos de um ano, restam apenas 17 mulheres em atividade, das 65 que ainda estavam empregadas no início de agosto (-74%). O declínio é ainda mais dramático nas províncias de Balkh e Herat, onde o número de mulheres jornalistas e profissionais da mídia caiu 98% e 94%, respectivamente. A relativa estabilidade que reinou nessas duas regiões nos últimos anos havia favorecido o desenvolvimento da mídia e o trabalho feminino. A chegada dos talibãs ao poder varreu em poucos dias os avanços dos últimos 20 anos.

 

As pressões do novo governo

Na capital, assim como no resto do país, as condições de trabalho dos jornalistas se complicaram especialmente desde a chegada dos talibãs. Os meios de comunicação devem agora cumprir “11 regras de jornalismo” emitidas pelo Ministério da Informação e Cultura e se conformar à Ordenação do bem e proibição do mal. Este texto perigoso abre as portas para a censura e a perseguição. Na verdade, os jornalistas perderam a sua independência: obrigados a informar os responsáveis do Departamento do Ministério da Informação e Cultura sobre os assuntos que pretendem cobrir, não devem apenas obter autorização prévia para poderem exercer o seu trabalho, mas também, em seguida, ter o resultado de sua reportagem verificado para ter o direito de difundi-la.


Em algumas províncias, a obrigação de substituir programas de notícias e música por programas puramente religiosos também fez com que várias estações de rádio locais encerrassem suas transmissões. 


"É urgente deter a espiral que leva ao inevitável desaparecimento da mídia afegã e fazer do respeito pela liberdade de imprensa uma prioridade", declarou Reza Moini, responsável pela RSF Irã-Afeganistão. “A segurança dos profissionais da informação, o destino das mulheres jornalistas, a lei da mídia e o direito de acesso à informação são questões cruciais que devem ser tratadas rapidamente pelas autoridades. Sem uma imprensa livre, capaz de expor as falhas da má governança, ninguém pode alegar lutar contra a fome, a pobreza, a corrupção, o tráfico de drogas e outros flagelos que assolam o Afeganistão e impedem o estabelecimento de uma paz duradoura no país."


Contatado pela RSF, o porta-voz do governo, Zabihullah Mujahid, garantiu que o Emirado Islâmico do Afeganistão apoia “a liberdade para a mídia dentro da estrutura definida para preservar os melhores interesses do país, com respeito à Sharia e ao Islã" e que o governo está disposto a "ajudar os meios de comunicação em funcionamento a permanecer assim e ajudar outros a encontrar soluções para que possam retomar suas atividades”.


Questionado também sobre a multiplicação de incidentes violentos envolvendo forças talibãs e jornalistas em campo (cerca de quarenta desde 15 de agosto de 2021), o porta-voz do governo reconheceu a responsabilidade das forças de segurança que “nem sempre se comportam de maneira correta e profissional”, ao mesmo tempo em que garantiu que esforços serão feitos para “tentar treiná-los e controlar essas ações”. O objetivo das autoridades talibãs, segundo ele, é continuar com as reuniões entre representantes da mídia e o governo “para encontrar soluções conjuntas” para as questões atuais.

As consequências econômicas

 

Além da repressão, os proprietários da mídia enfrentam novas restrições econômicas.  Muitos meios de comunicação operavam com ajudas nacionais e internacionais, que deixaram de ser pagas após a chegada dos talibãs. “Essa ajuda, que vinha em particular de países que tinham uma presença militar no Afeganistão e que tinham interesse em fazê-lo, foi cortada”, justificou o porta-voz do governo Zabihullah Mujahid.


A mídia também sofreu fortemente com a queda nas receitas publicitárias. Como explicou o dono de uma estação de rádio que fechou no final de outubro na província de Nangarhar, que perdeu 35% de seus veículos de comunicação: “a situação econômica é tão difícil que a maioria dos comerciantes, mesmo que não fechem suas lojas, não podem mais gastar dinheiro com publicidade”.


Reconhecendo o desaparecimento de muitos meios de comunicação, Zabihullah Mujahid, por sua vez, aponta o dedo “à fuga do país de executivos e gestores” dos meios de comunicação, que contribuiu para a sua “falência”. Desde agosto, centenas de jornalistas deixaram o país por medo de represálias ou pela impossibilidade de continuar a exercer sua profissão. 


"Além dos números, o fechamento de quase metade da mídia do país e a perda de mais de 6.000 empregos é um desastre para a liberdade de imprensa”, lamentou o diretor executivo da Associação de Jornalistas Independentes do Afeganistão (AJIA), Hojatollah Mujadadi. “Se as instituições internacionais não ajudarem os jornalistas e a mídia no Afeganistão e se o governo não tomar medidas urgentes, a outra metade da mídia e dos jornalistas que ainda trabalham em condições realmente difíceis terá o mesmo destino."


No momento da publicação da edição de 2021 do Ranking Mundial da Liberdade de Imprensa, em abril passado, o Afeganistão estava classificado em 122º lugar entre 180 países.


Metodologia

Os dados apresentados nesta publicação foram coletados entre 15 de novembro e 8 de dezembro de 2021 pela RSF e pela AJIA. As duas organizações identificaram os diferentes meios de comunicação estabelecidos em cada província antes de 15 de agosto de 2021, data da chegada dos talibãs à capital Cabul, e após 15 de novembro. Escritórios locais de veículos de comunicação nacionais e internacionais localizados em uma província foram contados como um único veículo. Veículos de comunicação recém-criados também foram contabilizados. Para cada um desses veículos, o número de funcionários (jornalistas e colaboradores) também foi identificado e classificado por gênero (mulher e homem).