Notícia

17 Setembro 2021

103 jornalistas afegãos lançam um pedido de ajuda por intermédio da RSF

Cerca de cem jornalistas afegãos anônimos estão lançando um forte apelo a instituições internacionais por meio da organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF).

O apelo, intitulado O jornalismo afegão está ameaçado de extinção, foi assinado por 103 jornalistas afegãos (incluindo 20 mulheres) de todos os meios de comunicação que dizem ter “opiniões políticas e etnias diferentes”. A maioria ainda trabalha no Afeganistão, em Cabul e em várias cidades do interior. Alguns, temendo por sua segurança, vivem na clandestinidade, e outros (cerca de dez) conseguiram deixar o país. Todos, inclusive os jornalistas exilados, preferiram permanecer anônimos, temendo represálias contra eles próprios ou seus familiares que permaneceram no país. 

 

Apesar do medo, o temor de ver o jornalismo e a informação plural desaparecerem completamente do Afeganistão os levou a apelar às instituições internacionais. Divulgado pela Repórteres Sem Fronteiras (RSF), o apelo pede às instituições que se mobilizem com urgência para permitir que a liberdade de imprensa sobreviva no Afeganistão. O crescente número de incidentes em campo nos últimos dez dias, a interferência cada vez mais flagrante do Talibã no trabalho da imprensa e a impossibilidade de muitas mulheres jornalistas continuarem a realizar o seu trabalho fazem com que se tema o pior.

 

Para garantir a perenidade do jornalismo no Afeganistão, os signatários solicitam garantias de proteção, sobretudo para as mulheres jornalistas que desejem continuar a exercer sua profissão, e meios para encorajar a manutenção ou reabertura dos meios de comunicação afegãos. Os jornalistas no exílio também devem poder se beneficiar de assistência para que possam continuar a exercer suas funções, e aqueles que têm uma necessidade vital de encontrar abrigo devem contar com o total apoio dos Estados.

 

Quando a edição de 2021 do Ranking Mundial da Liberdade de Imprensa foi publicada em abril passado, o Afeganistão ocupava o 122º lugar entre 180 países.

 

Ver a íntegra do apelo abaixo:


“Precisamos da solidariedade internacional para evitar a extinção do jornalismo afegão”

 

Somos jornalistas afegãos, de opiniões políticas e etnias diferentes. Alguns ainda têm condições de trabalhar, outros estão escondidos em Cabul ou no restante do país, outros ainda já estão no exílio ou a caminho dele. Todos somos forçados ao anonimato para lançar este apelo, devido ao risco para nossas vidas. Não queremos ver a extinção do jornalismo no Afeganistão, como aconteceu entre 1996 e 2001. A situação é urgente.

 

Por intermédio da Repórteres Sem Fronteiras (RSF), lançamos hoje um apelo solene às instituições internacionais para obter compromissos concretos por parte dos novos governantes do Afeganistão, no âmbito das negociações em curso. Em Cabul, menos de um sétimo das mulheres jornalistas continuam a trabalhar. Apesar dos compromissos públicos assumidos pelos talibãs, já percebemos os primeiros sinais concretos de uma repressão geral: ameaças a jornalistas em campo, intimidação das redações, censura disfarçada foram logo seguidos por prisões arbitrárias e tortura.

 

Pedimos a todos que querem o bem do Afeganistão e de sua população que se mobilizem pelo futuro do jornalismo afegão, qualquer que seja o cenário nos próximos meses. Pedimos por uma mobilização a favor da liberdade de imprensa no nosso país, da preservação das conquistas dos últimos vinte anos em matéria de independência dos meios de comunicação, pluralismo e proteção dos jornalistas. É responsabilidade das instituições internacionais garantir o respeito ao Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos, ratificado pelo Afeganistão.

 

Precisamos de vocês para garantir a perenidade do jornalismo no Afeganistão. Isto inclui meios para  fomentar a manutenção ou a reabertura de meios de comunicação afegãos. É fundamental garantir às nossas colegas, assim como a todas as colaboradoras dos meios de comunicação, a possibilidade de recuperar seus cargos e de exercer sua profissão em total segurança. A comissão tripartite de mídia criada  em 21 de agosto passado também deve oferecer garantias de que será de fato um instrumento de liberdade de imprensa e não de repressão dos jornalistas.

 

A curto prazo, precisamos de um forte apoio para as evacuações de jornalistas em perigo, dedicando a isto todos os recursos diplomáticos, consulares e financeiros necessários. Os jornalistas no exílio devem se beneficiar de facilidades para que continuem a exercer suas funções.

 

Neste período tanto histórico quanto caótico, o desaparecimento do jornalismo afegão seria catastrófico.  A necessidade de proteção dos profissionais da informação é fundamental para manter o direito fundamental de todos os cidadãos afegãos a ser corretamente informados, princípio indispensável para  conceber a possibilidade de ver um dia o Afeganistão a caminho de uma paz duradoura. Ajudem-nos a  fazer com que o jornalismo afegão sobreviva.

 

Signatários:

 

*Os signatários deste apelo, lançado por intermédio da RSF, permanecem anônimos por motivos de segurança.